“Quando o produtor começa a olhar os próprios dados, ele enxerga onde de fato está perdendo dinheiro…”
Maurício Schneider é CEO da Aegro, cofundador da Solubio e ex-CEO da StartSe Agro. Empreendedor, investidor anjo e membro do programa Accelerate 2030, da ONU. Formado em administração pela Universidade Federal de Santa Maria, com MBA em gerenciamento de projetos pela FGV.
A Aegro simplifica a gestão de fazendas, unindo dados operacionais do campo ao controle financeiro do escritório numa mesma plataforma digital. A empresa também opera um braço de inteligência de mercado que desenvolve pesquisas baseadas em dados anonimizados de milhares de hectares.
AgriBrasilis – Em que patamar se encontra a gestão rural no Brasil?
Maurício Schneider – Do ponto de vista de gestão, temos grupos bem distintos. De um lado, os grandes grupos corporativos, que já fizeram a transição do negócio familiar para uma empresa e tratam a fazenda como empresa. Esses estão muito bem e crescem até na crise. Do outro, a maioria dos agricultores brasileiros, que ainda decidem sem dados. E aqui faço questão de uma distinção: não é só uma questão de tecnologia. A tecnologia ajuda a organizar o dado, mas, se o produtor não se preocupa em organizar, ele não decide com base em número, com ou sem sistema. Gestão é decidir com base em dados. O que falta é sentar e acessar o dado certo, na hora certa. Quem faz isso está vencendo o jogo, e é o que explica a diferença de mais de 100% em rentabilidade entre os 10% do topo e a base do ranking.
AgriBrasilis – Onde as fazendas mais perdem por falhas de gestão?
Maurício Schneider – Quando o produtor começa a olhar os próprios dados, ele enxerga onde de fato está perdendo dinheiro. Quando a gente olha o custo operacional, a maior diferença está na gestão da compra de insumos: defensivos, fertilizantes e até no dimensionamento de máquinas. Comprar na janela certa, em vez da errada, pode representar uma diferença de até 100% no mesmo item. No nosso ranking de lucratividade da soja em Mato Grosso, as fazendas do topo colheram quase o mesmo que a média, só 3,7 sacas por hectare a mais, e ainda assim lucraram mais que o dobro. A diferença não estava na lavoura, estava na decisão de compra.
AgriBrasilis – Quais os principais motivos para a deterioração das margens do produtor?
Maurício Schneider – São quatro forças puxando a margem para baixo, e juntas viram uma bomba. A primeira é a gestão mal feita do custo: o produtor às vezes paga o dobro no mesmo produto. A segunda é o preço da commodity em queda. Ele é externo, mas também responde à gestão: temos visto quem acompanha o dado vender soja a um valor cerca de 3% acima de quem não olha os números, e ainda dá para amenizar com barter e com a hora certa de vender. A terceira é o custo de capital: nunca tivemos juro tão caro e tão escasso no agro. E a quarta são as frustrações climáticas, que têm se repetido pelo Brasil. Somadas, essas forças explicam por que a margem está tão pressionada.
AgriBrasilis – O produtor paga mais caro por insumos por falta de referência de preços?
Maurício Schneider – Aqui é preciso separar, porque cada insumo tem uma dinâmica. No fertilizante, o desafio é enxergar o ponto ótimo da relação de troca e as dinâmicas internacionais. Nos químicos, é negociação apertada e cotação, com uma condição: ter caixa para comprar na janela certa. Muita compra sai mais cara porque o produtor perde essa janela por falta de dinheiro e compra quando as empresas historicamente sobem o preço. Nos biológicos é onde mais falta informação, e o produtor acaba comparando maçã com banana: a mesma cepa, na mesma concentração, custa mais caro só pela marca. E ainda tem o manejo, porque dose baixa não dá retorno. É muita oportunidade: no Rio Grande do Sul, os que mais lucraram investem cerca de R$ 210 por hectare em biológico, contra R$ 110 da média. Já a semente está estável, e ali a questão não é preço, é técnica: qual cultivar comprar para cada ciclo e época.
AgriBrasilis – Como dados de gestão fortalecem a negociação com fornecedores?
Maurício Schneider – O dado quebra uma assimetria de informação que sempre existiu: o preço real estava com a indústria e com os traders, não com o produtor. Quando ele passa a saber as melhores janelas de compra e a tendência de preço, ganha poder de barganha. Ele chega e diz ao vendedor: vi que houve negócio nesse valor com um produtor aqui da região, quero o mesmo. Ou percebe que o preço está caindo e que é hora de comprar, ou que a procura por um insumo acelerou e vai entender por quê. São decisões que fazem ele comprar melhor. E os números falam por si: mostramos o tamanho da dispersão de preço no mesmo produto, na mesma janela e no mesmo mês.
AgriBrasilis – Qual é o maior gargalo para a profissionalização das propriedades?
Maurício Schneider – O maior gargalo é a entrada do dado. O produtor já tem muita coisa com o que lidar, e lançar dado não é o que ele gosta de fazer, nem é a natureza de quem está no campo. Por isso o caminho é automatizar essa entrada. Resolvido isso, vem o segundo passo, que é como as informações se conectam e se cruzam para de fato ajudar na decisão. É o que estamos fazendo bem na Aegro, com correlações, previsões e recomendações, apontando quando um dado somado a outro está formando uma tendência que merece atenção. Não adianta um painel com vinte números se o produtor não sabe o que eles significam nem que decisão tomar. No fim, é entrada automática do dado mais leitura certa, para gerir, comprar e vender melhor.
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