Agro precisa traduzir produção, inovação e impactos para a sociedade, segundo a nova presidente da CropLife Brasil

Published on: May 21, 2026

“Em um cenário cada vez mais polarizado, não basta falar de produtividade…”

Ana Paula Repezza é presidente da CropLife Brasil, formada em administração pela UFMG, com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e mestrado pela University of London.


AgriBrasilis – A comunicação do agro com a sociedade é eficiente?

Ana Repezza – O agronegócio representa aproximadamente 30% da economia do país, com PIB de R$ 3,2 trilhões em 2025, segundo dados do Cepea/CNA. Apesar desse peso, a comunicação com a sociedade ainda é um desafio. O setor avançou em transparência, presença digital, tecnologia, interlocução com outros segmentos e segurança jurídica, mas muitas vezes ainda fala “para dentro”, com linguagem técnica e distante do consumidor final.

Comunicar o agro exige traduzir produção, tendências e impactos para a sociedade. Em um cenário cada vez mais polarizado, não basta falar de produtividade, safras e culturas agrícolas. É preciso mostrar as relações do setor com ciência, inovação, sustentabilidade, segurança alimentar e geração de empregos.

É necessário aproximar o campo da vida cotidiana, mostrando como o agro está presente nos alimentos, na energia, nos transportes, na indústria e na rotina das cidades. A comunicação precisa se apoiar em fatos, resultados e responsabilidades: como o setor se moderniza, responde a exigências ambientais e sanitárias e se prepara para os próximos desafios.

AgriBrasilis – Como os bioinsumos estão mudando a indústria de proteção de cultivos?

Ana Repezza – Os bioinsumos contribuem de forma significativa para a eficiência produtiva e sustentabilidade da lavoura. Hoje, a tecnologia biológica é uma realidade no campo, uma solução viável e estratégica para o manejo integrado de pragas e para o aumento da produtividade. Em 2025, o mercado de bioinsumos alcançou o recorde de R$ 6,2 bilhões, aumento de 15% em relação ao ano anterior. Os biológicos cobriram 194 milhões de hectares, avanço de 28% em relação a 2024 e um crescimento de quase 70% nos últimos três anos.

O amadurecimento do setor é marcado pela complementaridade entre tecnologias, orgânicas e sintéticas, reduzindo dependências e/ou resistências ao longo do tempo. O avanço do mercado também vem da entrada de novos players no setor, que ocorre pela abertura de empresas, fusões ou aquisições. O crescimento da adoção é associado à evolução e qualidade do insumo, ao maior portfólio disponível e à maior confiança dos produtores no uso de produtos à base da natureza.

AgriBrasilis – A regulação é um obstáculo para as inovações no agro?

Ana Repezza – Em uma agricultura tropical, a inovação é indispensável para sustentar a produtividade e a competitividade do campo. Por isso, é fundamental que o país conte com bases legislativas sólidas e atualizadas. Entre os principais desafios para tornar esse ambiente de negócios seguro, tanto para investidores, quanto para os produtores que utilizam das soluções agrícolas na ponta, está o avanço nas regulamentações e/ou modernizações de Marcos Legais setoriais.

A Lei de Bioinsumos (Lei nº 15.070/24), pioneira no mundo, representou avanço ao reconhecer e definir regras específicas de produção, registro e comercialização desses produtos, que antes eram regulados de forma genérica em outras leis e normativas complementares. Contudo, o setor aguarda a publicação da regulamentação infralegal final, para detalhar fluxos de registro, harmonizar práticas entre estados e garantir previsibilidade e posição no mercado global. Já a Lei de Agrotóxicos (Lei nº 14.785/23), que trouxe aprimoramento na governança do tema, concentra-se na implementação de processos de rastreabilidade e avaliação do risco.

No segmento das sementes, o desafio é a modernização da Lei de Proteção de Cultivares (Lei nº 9.456/1997), que dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de cultivares e remuneração de melhoristas de genética vegetal no Brasil. Nesse contexto, a CropLife tem contribuído com dados, pesquisas e evidências aos formuladores de política pública. O objetivo é demonstrar que com mais segurança jurídica, fortalecimento dos mecanismos de propriedade intelectual, e alinhamento a regras internacionais, podemos criar um ambiente mais atrativo a investimentos e inovação em cultivares.

AgriBrasilis – A senhora tem destacado a falta de alinhamento regulatório entre o Brasil e parceiros comerciais. Onde esse descompasso pesa mais?

Ana Repezza – É fundamental que o Brasil avance na convergência regulatória com seus principais mercados, especialmente a China, seu maior parceiro comercial. A diferença entre processos, exigências e prazos de aprovação pode atrasar a chegada de novas tecnologias ao campo e afetar várias etapas da produção agrícola. Maior alinhamento regulatório tende a tornar o desenvolvimento de novos produtos mais eficiente, aumentar a segurança jurídica, atrair investimentos e acelerar o acesso dos produtores a soluções que permitam produzir mais, em menor área, com mais segurança para o consumidor.

AgriBrasilis – O que o Brasil está acertando e onde ainda falha em rastreabilidade e sustentabilidade?

Ana Repezza – O Brasil tem avançado em ambos os temas, de maneira a equilibrar inovação em escala industrial, conservação ambiental e produtividade no campo. A CropLife Brasil reconhece a importância de mecanismos que ampliem a transparência, a integridade de informações e a capacidade de monitoramento ao longo da cadeia de produção, distribuição e uso de defensivos agrícolas. São temas relevantes para refinar a governança do setor e para o fortalecimento de políticas públicas ao agronegócio, baseadas em dados e análise de risco.

Quando tratamos de rastreabilidade no Brasil, a convergência com o mérito e objetivos relacionados ao rastreamento dos insumos é clara. As preocupações do setor concentram-se na forma de implementação do modelo atual proposto pelo órgão regulador (MAPA), que compromete princípios como previsibilidade, participação social e racionalidade econômica, além de custos de implementação e operacionais ao longo da cadeia. A entidade defende modelos baseados em neutralidade tecnológica e interoperabilidade, com uso de diferentes soluções — como códigos 2D, QR Code e plataformas digitais integradas — desde que garantam identificação, registro e auditoria das movimentações.

Com relação à sustentabilidade, é preciso um olhar holístico que conecte ordenamento jurídico quanto ao uso correto e seguro das tecnologias, boas práticas agrícolas e capacitação de pessoal – seja no campo ou na indústria. A agenda é compromisso permanente na CLB que, institucionalmente, aplica a pauta em suas câmaras e comitês executivos, pareceres técnicos e contribuições regulatórias, fomenta recomendações em campanha e operacionaliza treinamentos gratuitos para os elos da cadeia, incluindo sua indústria representativa.

AgriBrasilis – O que o CropData revela sobre produtividade, uso de insumos e segurança no campo?

Ana Repezza – A nossa plataforma de dados reúne informações sobre germoplasma, bioinsumos, defensivos químicos e biotecnologia. O portal busca auxiliar na construção de conteúdo referenciado, estruturado e simplificado, acessível para qualquer público.

O CropData reúne informações externas, refinadas, e dados setoriais de consultorias, permitindo visualizar indicadores de mercado, comércio exterior, uso e registro de defensivos agrícolas, ESG, empregos e salários. Todo o hub de informações passa pela auditoria técnica da nossa equipe para garantir o lastro e a confiabilidade das informações.

AgriBrasilis – Qual é o foco da sua gestão na CropLife Brasil?

Ana Repezza – Meu foco será reforçar o reconhecimento do agro brasileiro como um setor de alta tecnologia, ciência tropical e elevada produtividade. Nosso compromisso é ampliar o diálogo institucional, avançar nas agendas regulatórias prioritárias e projetar o setor nos debates internacionais sobre inovação agrícola. Também buscarei fortalecer o relacionamento com o governo, tanto no Executivo quanto no Legislativo.

Em 2026, a gestão atuará com foco em:

  • químicos, incluindo isonomia nas importações e eficiência regulatória da Lei dos Agrotóxicos;
  • biológicos, com avanço na regulamentação do Marco Legal;
  • sementes, por meio da modernização da Lei de Proteção de Cultivares e da convergência regulatória internacional.

O desafio será traduzir a complexidade da agricultura tropical, seus impactos econômicos e seus ganhos sustentáveis para a sociedade urbana e para o mercado internacional, reforçando o papel do Brasil como referência em inovação e produção agrícola sustentável.

 

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