“Não dá para copiar outros países”: Brasil precisa de tecnologia própria no controle biológico

Published on: April 23, 2026

É esse o nosso desafio, desenvolver um tipo de controle biológico adequado às condições de nossa agricultura.

José Roberto Postali Parra é diretor do SPARCBio (São Paulo Advanced Research Center for Biological Control), instituto apoiado pela FAPESP, USP e Koppert com sede na ESALQ. É professor titular aposentado do Departamento de Entomologia e Acarologia da ESALQ. 

Postali possui graduação em engenharia agronômica, mestrado e doutorado em entomologia pela USP, com pós-doutorado na Universidade de Illinois (Urbana Champaign).


AgriBrasilis – Qual é o panorama do controle biológico no Brasil? 

José Roberto Postali – A agricultura brasileira cresceu nos últimos 50 anos e hoje o Brasil é líder em agricultura tropical, com uma tecnologia própria. Entretanto, por ser diferente de outros países, com áreas muito grandes ocupadas por uma única cultura, com 2 a 3 e colheitas anuais, com sucessão de culturas, condições edáficas e climáticas favoráveis às pragas e doenças, não dá para copiar técnicas de outros países. É o que acontece com o controle biológico, para o qual temos que desenvolver uma tecnologia própria para as condições tropicais. É esse o nosso desafio, desenvolver um tipo de controle biológico adequado às condições de nossa agricultura.

Existiam alguns mitos que tiveram que ser desmistificados para aumentar a utilização do controle biológico no Brasil. O principal destes mitos foi o cultural, pois o agricultor brasileiro estava acostumado com inseticidas químicos. Em 2013, foi registrada a espécie Helicoverpa armigera no Brasil, praga que tem mais de 100 hospedeiros. Entretanto, não havia, na época, nenhum produto químico registrado para a praga. Utilizaram-se Trichogramma pretiosum (parasitoide de ovos) e um Baculovírus específico para a praga e o sucesso do controle biológico foi total. A partir daí os agricultores passaram a acreditar no controle biológico. Esse é o marco do controle biológico no Brasil, e, a partir daí, houve uma explosão de produtos biológicos registrados, chegando a 953 produtos registrados atualmente, para cerca de 200 alvos, com um tempo médio recorde para registro de 13 meses (na Europa, demora 7-8 anos para registro).

Hoje a terminologia de controle biológico mudou, sendo considerado parte dos bioinsumos. Antigamente eram considerados apenas parasitoides e predadores (macrorganismos) e patógenos (microrganismos), além de semioquímicos (feromônios, por exemplo). Hoje esse grupo é dos bioagentes, havendo ainda os bioestimulantes e biofertilizantes como parte dos bioinsumos.

O Brasil está aumentando a utilização do controle biológico em torno de 25- 30% ao ano, enquanto outros países do mundo aumentam em 15-20%. Na soja, por exemplo, 62% dos agricultores utilizam bioinsumos, no milho são 23%, cana-de-açúcar, 10%, e algodão, café, frutíferas e hortaliças em torno de 5%. Nos estados do Mato Grosso, Goiás e São Paulo temos os maiores índices de utilização de bioinsumos, de 34%, 12% e 10% respectivamente.

Total de produtos registrados a partir de 2013 (seta vermelha), ano do registro de Helicoverpa armigera no Brasil.

Total de produtos registrados a partir de 2013 (seta vermelha), ano do registro de Helicoverpa armigera no Brasil.

AgriBrasilis – Quais são os principais exemplos de sucesso? 

José Roberto Postali – Dentre os microrganismos, Bacillus spp., Octane, Metarril, Boveril, Trichodermil, Challenger, Baculovirus, são alguns exemplos. Dentre os macrorganismos, Trichogramma galloi, T. pretiosum, Telenomus podisi, Cotesia flavipes, Orius insidiosus, entre outros.

T. galloi é liberado em 5 milhões de hectares para controlar Diatraea saccharalis, a broca-da-cana, sendo o maior programa de controle biológico com macrorganismos em regiões tropicais do mundo. 

AgriBrasilis – Em que situações o controle biológico não é recomendado? Quais são os principais equívocos associados a essa modalidade? 

José Roberto Postali – Nem sempre há disponibilidade do insumo biológico. É o caso da soja, onde Euschistus heros (principal praga) é sabidamente controlado por Telenomus podisi, mas ainda não há disponibilidade desse inimigo natural em larga escala. As criações massais são um problema para macrorganismos. A qualidade dos insumos é muito importante para a credibilidade do controle biológico.

O controle biológico não deve ser considerado isoladamente, mas sim como componente do MIP (Manejo Integrado de Pragas). Os agricultores devem ser melhor treinados para controle biológico, que hoje deixa de ser fácil, como muitos consideram, mas sim muito técnico, utilizando-se técnicas sofisticadas para liberação, como drones. Embora hoje existam criações massais, o controle biológico deve ser utilizado no início das infestações, ou seja, no nível de controle dos organismos pragas ou doenças.

AgriBrasilis – Em que proporção o controle biológico pode reduzir o uso de agrotóxicos? Como combinar esses produtos sem comprometer o MIP?

José Roberto Postali – Não se deve pensar em acabar com inseticidas. Eles terão o seu espaço em determinadas condições, evitando-se sempre a irracionalidade em seu uso. Os produtos biológicos não devem ser necessariamente considerados isoladamente, mas sim como parte do MIP, podendo haver até integração com químicos, desde que tais produtos sejam seletivos. 

AgriBrasilis – Por que o mercado de microrganismos avançou mais rápido do que o de parasitoides e predadores?

José Roberto Postali – O motivo é muito simples:

1 – Os microrganismos são aplicados de forma semelhante aos químicos, com a qual os agricultores já estavam acostumados;

2 – Os microrganismos têm o chamado shelf-life (tempo de prateleira), enquanto os macrorganismos devem ser liberados imediatamente após sua emergência.

Além disso, a logística com os macrorganismos também é mais complicada para longas distâncias, para que cheguem em condições de serem liberados (muitas vezes, chegam mortos). Hoje, a utilização é de 72% para microrganismos contra 12% para macrorganismos (parasitoides e predadores). Assim, das mais de 170 empresas que comercializam bioinsumos, a grande maioria é de microrganismos.

AgriBrasilis – O que mudou no controle biológico nos últimos anos? Quais avanços devem definir o futuro do setor?

José Roberto Postali – Para se superar os atuais 156 milhões de hectares tratados no Brasil (área potencial tratada), e um mercado global de U$ 14 bilhões, temos que avançar nas pesquisas e treinamento de profissionais, aumentar a qualidade dos organismos produzidos (surgem muitas empresas pouco preparadas para controle biológico), aumentar a disponibilidade de insumos (pois as áreas são muito grandes, especialmente as de commodities), aperfeiçoar a legislação para os bioinsumos (que melhorou nos últimos anos), incrementar criações massais de macrorganismos e a sua respectiva logística e distribuição, aumentar a visibilidade do que é controle biológico para a sociedade e para agricultores e, obviamente, investir em grandes projetos, estimulando recursos vindos de grandes empresas.

 

LEIA MAIS:

Crise climática causa perdas bilionárias para agro do Uruguai