Crise climática já causou perdas bilionárias para o agro do Uruguai

Published on: April 21, 2026

“O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos eleva os riscos de fracasso na produção agropecuária…”

Walter Baethgen é professor emérito da Universidade de Columbia, onde atuou como pesquisador sênior e diretor do Centro de Pesquisa sobre Clima e Sociedade da Climate School, além de diretor do Centro de Agricultura e Segurança Alimentar do Earth Institute. Foi vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária do Uruguai. 

Baethgen é mestre e doutor pela Virginia Polytechnic Institute and State University, formado em engenharia agronômica pela Universidade da República, no Uruguai.


Walter Baethgen, professor na Universidade de Columbia

AgriBrasilis – Qual é a relação entre os gases de efeito estufa e a ocorrência de fenômenos meteorológicos extremos?

Walter Baethgen – O aquecimento global acumula energia térmica na atmosfera e nos oceanos, o que desestabiliza os padrões climáticos globais ao intensificar o ciclo hidrológico global, aumentando a evaporação e o teor de vapor d’água na atmosfera. Isso resulta em um aumento na frequência e na intensidade de eventos extremos, como ondas de calor, secas, incêndios florestais e inundações.

AgriBrasilis – Como a mudança do clima está afetando a agricultura uruguaia?

Walter Baethgen – O aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos eleva os riscos de fracasso na produção agropecuária. Em particular, aumentam os riscos da produção realizada “a céu aberto”, que depende diretamente das condições climáticas existentes.

AgriBrasilis – Quais medidas preventivas estão sendo implementadas pelo governo e pelo setor privado?

Walter Baethgen – Existe uma série de esforços públicos e privados para melhorar a capacidade de adaptação à mudança do clima. O governo dispõe de fundos emergenciais para ajudar os produtores menores, existem seguros públicos e privados que tentam transferir pelo menos parte desses riscos associados ao clima, e está sendo estimulado o desenvolvimento da irrigação onde isso é possível. No campo da pesquisa, existem trabalhos específicos voltados à adoção de práticas de manejo que tornem os sistemas de produção mais resilientes.

AgriBrasilis – Qual é o custo econômico das secas para a agricultura uruguaia?

Walter Baethgen – O custo das secas é muito significativo para a economia uruguaia. Por exemplo, estima-se que a seca de 2022/23, a pior já registrada na história do Uruguai, resultou em perdas diretas de mais de US$ 1,8 bilhão. Isso já é muito negativo por si só, mas, além disso, o agro gera um impacto multiplicador sobre o restante da economia que pode chegar a um fator de 3 ou mais, ou seja, para cada dólar perdido no agro, o país perde 3 dólares.

AgriBrasilis – O que o país aprendeu com a crise hídrica de 2022/2023?

Walter Baethgen – Isso não foi algo novo para o agro. Foi uma situação já vivida muitas vezes, mas com intensidade bem maior.

Dada a importância do agro para a economia e, particularmente, para as exportações do Uruguai, creio que ficou clara a necessidade de tornar os sistemas agropecuários mais resilientes. Isso inclui desenvolver a irrigação onde for possível, diversificar a produção, identificar sistemas mais resilientes e tentar mitigar a maior proporção possível dos riscos por meio de instrumentos financeiros, como os seguros.

AgriBrasilis – Por que segue sendo difícil alcançar um consenso entre os países com maiores emissões para reduzir as emissões de gases de efeito estufa?

Walter Baethgen – O problema das emissões de gases de efeito estufa hoje está no setor de energia: 75% das emissões totais globais vêm da queima de combustíveis fósseis. Atualmente, 80% da matriz energética global ainda depende de combustíveis fósseis. Portanto, embora existam países comprometidos em reduzir essa dependência, será um processo lento. Essas dificuldades aumentam quando alguns países sequer se comprometem a reduzir as emissões.

Mais de 50% das emissões totais de gases de efeito estufa vêm da China, dos Estados Unidos e da União Europeia. É nesses países que é necessário acelerar a transição para energias renováveis. Naturalmente, esse também será um processo lento, dada a dependência de combustíveis fósseis da matriz energética atual.

 

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