Published on: April 16, 2026

“As variedades hoje plantadas pelos agricultores provêm de poucos ancestrais…”

Juliano Gomes Pádua é pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, agrônomo pela Universidade Federal de Lavras, com doutorado em genética e melhoramento de plantas pela USP.


Juliano Gomes Pádua, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

AgriBrasilis – Por que conservar a diversidade genética de cultivos agrícolas?

Juliano Gomes Pádua – Porque ela é a base da segurança alimentar. A diversidade genética é, na prática, o “seguro” da agricultura. Quando precisamos de alguma característica para melhorar uma planta, nós acionamos esse seguro através da diversidade genética conservada nos bancos de germoplasma. Nesse sentido, buscamos identificar nos bancos plantas que possuam alguma característica que possa conferir tolerância à seca, às altas temperaturas, resistência às doenças, adaptação a solos pobres. Em um cenário de mudanças climáticas, isso deixa de ser apenas importante e passa a ser essencial.

Além disso, todo o melhoramento genético depende dessa diversidade. As cultivares modernas que usamos são resultado de ciclos de cruzamento e seleção sucessivos com materiais geneticamente diversos. Se essa base genética se reduz, o avanço tecnológico também fica limitado. Essas ações também estão intimamente ligadas à soberania alimentar, pois possibilitam que o país tenha autonomia para desenvolver suas próprias soluções agrícolas sem depender exclusivamente de pacotes tecnológicos fechados do exterior.

Outro ponto importante é a qualidade dos alimentos. A diversidade genética está associada à variabilidade nutricional, de sabor e até de usos culturais. Ao perder diversidade, não perdemos apenas produtividade, perdemos também riqueza alimentar e cultural.

Além da conservação realizada nos bancos de germoplasma de instituições de pesquisa, há também o importante trabalho realizado pelos agricultores que conservam variedades que vêm sendo cultivadas há décadas, denominadas de variedades crioulas, tradicionais ou locais. Essa modalidade é chamada de conservação on farm, na qual as variedades são mantidas em um processo evolutivo constante, pois estão sendo mantidas sob cultivo. As plantas estão no campo enfrentando o sol, a chuva, os insetos e os vírus, fungos e bactérias de hoje. Elas vão se adaptando localmente às mudanças climáticas em tempo real.

AgriBrasilis – Quais espécies são mais conservadas?

Juliano Gomes Pádua – A FAO estima que existam mais de 850 bancos de germoplasma nacionais em 116 países, que juntos conservam quase 6 milhões de acessos, que são as amostras presentes nos bancos.

Assim, cada país conserva um conjunto de espécies de acordo com suas necessidades e interesses. As espécies vegetais que constituem a base da cadeia alimentar humana estão mais bem representadas nas coleções ao redor do mundo, como trigo, arroz e milho.

No caso do Brasil, estima-se que existam mais de 370 mil acessos conservados de aproximadamente 2330 espécies diferentes. As grandes coleções são de soja, arroz, feijão e trigo. Graças à grande extensão geográfica do Brasil e a sua diversidade climática e ambiental, há ampla riqueza de espécies nativas utilizadas para a alimentação, notadamente de frutas, palmeiras, raízes e tubérculos, além de plantas com propriedades ornamentais e medicinais que estão conservadas em bancos de germoplasma. Tais espécies ainda são muito pouco exploradas, salvo exceções como abacaxi, açaí, cacau, caju, castanha-do-brasil, cupuaçu, guaraná, mandioca e maracujás.

AgriBrasilis – Estamos perdendo diversidade genética nas lavouras?

Juliano Gomes Pádua – Sim. Desde a Revolução Verde, houve uma substituição massiva de variedades locais (crioulas) por cultivares comerciais de alta produtividade. Embora isso tenha aumentado a produção total de alimentos, também resultou em uma homogeneização perigosa. As variedades hoje plantadas pelos agricultores provêm de poucos ancestrais, o que as torna aparentadas, ou seja com baixa diversidade genética. Um estudo realizado em 2013, constatou que quatro cultivares de soja constituem a base das cultivares atuais. Estudo em cana-de-açúcar também mostrou um cenário parecido. Cerca de 59% da genética das variedades analisadas veio de apenas 4 ancestrais.

Além dessa perda de diversidade, uma outra maneira ocorre quando agricultores abandonam as sementes das variedades crioulas selecionadas pelas suas famílias por gerações em favor de uma variedade comercial, ou até mesmo por outra espécie. Os genes únicos adaptados àquele microclima específico podem se perder para sempre.

Contudo, já existem casos em que essa situação está sendo revertida. A busca de genes nos parentes silvestres das plantas cultivadas tem trazido diversidade para muitas espécies como tomate, arroz, cana-de-açúcar, amendoim, soja e algodão.

AgriBrasilis – Os bancos de germoplasma são suficientes para preservar essa diversidade? 

Juliano Gomes Pádua – De forma nenhuma. A maneira mais eficaz para preservar a diversidade é a associação de estratégias de conservação, usando tanto a abordagem da conservação ex situ, em bancos de germoplasma, quanto a da conservação in situ, no local de ocorrência natural das espécies, e da conservação on farm, quando as plantas são manejadas pelos agricultores.

Essas formas de conservação são interdependentes. Nenhuma é eficiente por si só. Na conservação on farm, o risco de perda de plantas por ataque de pragas, doenças, ocorrência de seca, chuva, enchente, vendaval é considerável, principalmente levando em conta o cenário de mudanças climáticas e eventos extremos. Apesar disso, essas plantas estão em constante evolução. Nos bancos de germoplasma, no entano, as plantas não evoluem, ou seja, representam a diversidade estática. Mas nos bancos é possível conservar uma grande diversidade em um espaço reduzido e com condições mais controladas, aumentando o grau de segurança para conservação.

AgriBrasilis – Qual é o nível de dependência do Brasil de sementes estrangeiras? Quais as consequências para o agro?

Juliano Gomes Pádua – A maioria das espécies que constituem a base da alimentação da população brasileira é exótica, isto é, são originadas de outros países. O arroz e a soja são de origem asiática, o feijão da América Central e Andina, o trigo veio do México, o café da Etiópia.

Contudo, a ciência brasileira conseguiu ao longo dos anos importar muito material vegetal dessas espécies e hoje possui bancos de germoplasma que conservam considerável diversidade destas espécies. Além da conservação, o Brasil conseguiu avançar no desenvolvimento de cultivares adaptadas às nossas condições ambientais. 

Exemplos de sucesso são a tropicalização da soja, que antes era cultivada quase que só na região Sul do Brasil até meados do século XX, mas que hoje pode ser cultivada em todos os Biomas. 

O cultivo de uvas na região do Semiárido também revela a eficiência do uso da diversidade, associada às práticas de manejo agrícola. Mais recentemente, temos presenciado o avanço da cultura do trigo no Cerrado, alcançando índices de produtividade elevados, permitindo que em poucos anos, o Brasil alcance a autossuficiência produtiva.

AgriBrasilis – O Brasil aproveita o potencial da sua biodiversidade?

Juliano Gomes Pádua – Ainda de forma limitada. O Brasil é um dos países mais biodiversos do mundo, mas essa riqueza ainda não se traduz plenamente em sistemas produtivos.

Poucas espécies nativas foram efetivamente domesticadas ou inseridas em cadeias produtivas estruturadas. Isso contrasta com o potencial existente, tanto para alimentação quanto para novos produtos industriais, farmacêuticos e cosméticos.

O Brasil detém cerca de 15% a 20% da biodiversidade mundial, mas nossa balança comercial agrícola ainda é sustentada por espécies exóticas (soja da China, gado da Índia, café da Etiópia, cana da Ásia).

Existem avanços importantes, inclusive liderados pela Embrapa, mas ainda há gargalos relevantes. Entre eles, a dificuldade de transformar biodiversidade em produtos de mercado, a necessidade de maior investimento em pesquisa e desenvolvimento, e questões regulatórias.

Aproveitar melhor esse potencial pode trazer benefícios econômicos, sociais e ambientais. Pode diversificar a produção agrícola, reduzir a dependência de poucas culturas e valorizar recursos locais.

No contexto atual, isso não é apenas uma oportunidade — é também uma estratégia para construir uma agricultura mais resiliente e sustentável.

 

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