“O agro oferece várias frentes de investimento: terra, produção agrícola, logística e tecnologia, entre outros…”
Olivier Colas é sócio da Buri Asset Management e cofundador da Funchal Investimentos, formado em economia pelo Institut d’Études Politiques de Paris, com formação executiva pela Harvard Business School.
Colas foi presidente da Coimex Trading e vice-presidente da Kepler Weber. Atua no agronegócio e no mercado de capitais, com experiência em estruturação de fundos, reestruturação de empresas e investimentos em terras agrícolas.
AgriBrasilis – Ainda vale a pena investir no agro?
Olivier Colas – Com certeza. A população mundial cresce sem parar, continua demandando mais proteína e deverá chegar a 9,7 bilhões de pessoas até 2050. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – USA projeta que a produção mundial de soja deverá atingir 500M de toneladas até 2035, ante 428M em 2024/5 — crescendo mais rápido que a população. Some-se a isso a demanda por biocombustíveis (SAF) e etanol automotivo, exigindo que as terras brasileiras absorvam cerca de 60% dessa demanda adicional. Com o tripé terra agricultável, sol e água, o Brasil segue como a fronteira natural para capturar esse crescimento, tese que orienta boa parte da nossa atuação na Buri Asset Management (Buri).
AgriBrasilis – Onde estão as melhores oportunidades e quem está disposto a investir no setor?
Olivier Colas – O agro oferece várias frentes de investimento: terra, produção agrícola, logística e tecnologia, entre outros. A tecnologia (sementes, fertilizantes, monitoramento de precisão, armazenagem) vem impulsionando a produtividade da soja e do milho. Já a logística, apesar dos avanços desde 2000, ainda sofre atrasos: 60% dos grãos ainda são escoados por rodovia, modal menos eficiente acima de 500 km e com custo de até 30% do valor final da produção. A falta de armazenagem também corrói a rentabilidade do produtor, limitando sua capacidade de arbitrar preços entre safras. Outra frente relevante são os fertilizantes: mais de 80% são importados, e o desenvolvimento de uma indústria nacional (organominerais, biochar, etc.) é hoje quase uma questão de urgência. Por fim, a terra em si é uma oportunidade: seu preço está descolado da trajetória histórica de longo prazo, assimetria que a Buri busca capturar com o fundo de terras agrícolas (Fundo Cultiva), que mira propriedades de qualidade com desconto relevante.
AgriBrasilis – Terras agrícolas estão com descontos de até 40% frente a 2022. Ainda há espaço para os preços caírem?
Olivier Colas – Podem surgir transações pontuais abaixo desse patamar, mas isso não é um padrão de mercado. Regra geral, o preço da terra no Brasil é ditado pelo preço da soja (cotação global), pela política de estoques da China e pela taxa de câmbio. A produção brasileira de soja deve alcançar 181,6M de toneladas nesta safra, ante 180M na anterior, o que não deve pressionar os preços para baixo. Já o câmbio é influenciado pela Selic, que iniciou trajetória de queda e chegou a 13,75% ao ano em setembro de 2026, o que é ainda um patamar punitivo para um setor que depende de capital de giro e investimento. Uma normalização dos juros, somada a uma valorização da soja em reais (fatores que, acreditamos, devem ocorrer nos próximos 18 a 24 meses), são as condições mínimas para reverter o atual desconto das terras.
AgriBrasilis – Como distinguir uma boa propriedade com desconto de um mau investimento?
Olivier Colas – O investidor precisa ter clareza sobre o objetivo: produzir, investir no imóvel a longo prazo ou especular. Cada objetivo e cada cultura exige uma estratégia diferente e define o nível de exigência sobre solo, pluviometria, topografia e logística. O motivo do desconto também precisa ser investigado: pode ser financeiro (situação do vendedor) ou jurídico momentâneo (um espólio), o que se precifica normalmente. Já casos jurídicos mais complexos, como terra devoluta, área quilombola ou indígena, fraude documental, exigem avaliação especializada e podem não justificar a compra. Para quem não é produtor ou não conhece o setor, o recomendável é se cercar de profissionais com experiência e reputação reconhecidas.
AgriBrasilis – O que são ativos estressados e por que estão ganhando cada vez mais relevância?
Olivier Colas – No agronegócio, vários segmentos concentram ativos estressados: revendas de insumos, indústria de transformação, produtores agrícolas, cerealistas e transportadoras. A combinação de queda no preço das commodities, alta dos fertilizantes, juros elevados e inadimplência formou uma tempestade perfeita que atingiu o setor como um todo — bancos, produtores e intermediários. Esse é hoje um bom momento para se posicionar: o pós-crise costuma trazer redistribuição de ativos e maior concentração de atores, com o ciclo de ganhos voltando para quem chegou primeiro. O capital especializado está migrando para fundos “distressed“, mas a vantagem competitiva real está em originação, e é aí que uma equipe com anos de experiência no setor, estruturando e gerindo fundos dedicados ao agro desde 2019, como a Buri, se diferencia.
AgriBrasilis – Como o avanço das recuperações judiciais está mudando a dinâmica dos investimentos no agro?
Olivier Colas – As recuperações judiciais no agro brasileiro subiram 66% entre junho de 2025 e junho de 2026, somando cerca de 1.263 empresas e produtores rurais em RJ e passivo total de R$ 38 bilhões — 59% dos pedidos vêm de produtores rurais, concentrados em soja, café e pecuária. O efeito sobre o investimento tem duas frentes: bancos e tradings estão vendendo carteiras de crédito inadimplente, num mercado de NPL [Non-Performing Loans, ou créditos não performados] ainda pouco disputado por capital especializado em agro; e produtores alavancados usam a RJ para renegociar dívida e, em muitos casos, para se capitalizar vendendo terra, o que abre espaço para comprar de quem está numa situação de iliquidez. É justamente para capturar esses dois movimentos que a Buri está estruturando produtos complementares: um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios de NPL, o Renaissance, para crédito rural inadimplente com desconto, e o fundo de terras agrícolas, o Cultiva, para ativos de produtores em situação real de estresse. A vantagem competitiva aqui não é só ter capital: é ter uma rede de originação madura para chegar antes da concorrência.
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