Pesquisador e melhorista argentino analisa inovação, royalties e UPOV 91 no mercado de sementes

Published on: August 26, 2026

“O tempo necessário para obter uma nova variedade de soja geralmente varia de oito a dez anos…”

Leonardo Daniel Ploper é pesquisador emérito da Estação Experimental Agroindustrial Obispo Colombres, ex-pesquisador principal do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina – CONICET, engenheiro agrônomo pela Universidade Nacional de Tucumán, com mestrado e doutorado pela Universidade Purdue e pós-doutorado em fitopatologia pela Universidade Auburn. Especialista em fitopatologia e melhoramento genético de plantas.


AgriBrasilis – Como se inicia o desenvolvimento de uma nova variedade?

Daniel Ploper – Para desenvolver uma variedade, é fundamental gerar variabilidade genética que permita selecionar genótipos superiores. Para isso, são realizados cruzamentos sexuais entre genitores de elite para as principais características desejadas e fontes que contenham genes específicos para características fitossanitárias, de qualidade, entre outras. A biotecnologia também contribui para essa diversidade, por meio de eventos com características específicas, como tolerância a herbicidas ou resistência a insetos.

A partir desses cruzamentos, a variabilidade genética começa a se expressar e, ao longo das gerações seguintes, o trabalho consiste em selecionar os melhores genótipos. No caso da soja, os métodos mais utilizados são o de descendência de uma única semente (single seed descent) e o de retrocruzamentos. [Nota da redação: no single seed descent, uma semente de cada planta origina a geração seguinte. No retrocruzamento, os descendentes são novamente cruzados com um dos genitores para incorporar uma característica específica].

Atualmente, também é adotado um processo acelerado chamado speed breeding, que utiliza métodos artificiais de geração de ciclos curtos em câmaras climáticas, juntamente com a genotipagem dos indivíduos obtidos em cada geração. Embora seja mais caro, esse procedimento permite lançar uma variedade no mercado mais rapidamente.

Depois de obtidas, as linhagens avançadas são avaliadas em ensaios comparativos conduzidos em diferentes ambientes pelas equipes de pesquisa. As seleções mais promissoras seguem para ensaios em maior escala, que orientam a decisão sobre sua continuidade ou lançamento comercial. Simultaneamente, é realizada a estabilização das linhagens até que se obtenham pureza e estabilidade, para que posteriormente sejam encaminhadas à equipe de produção.

AgriBrasilis – Quanto tempo leva e quanto custa o melhoramento genético?

Daniel Ploper – O tempo necessário para obter uma nova variedade de soja geralmente varia de oito a dez anos. Entretanto, programas que avançam gerações em outras localidades ou sob condições controladas conseguem reduzir esse período pela metade. É preciso considerar de dez a 12 gerações no total. Dependendo da metodologia de melhoramento e da capacidade financeira do programa, uma nova variedade pode chegar a um volume avançado de produção em, no mínimo, seis anos.

Quando são considerados os eventos biotecnológicos desenvolvidos e incorporados às variedades, é necessário acrescentar anos adicionais de pesquisa, desenvolvimento e avaliação e aprovação regulatória nos diferentes países.

O custo para a obtenção de uma variedade depende do investimento destinado ao programa. Esse valor varia conforme se trate de uma instituição pública ou de uma empresa privada, bem como de acordo com o alcance geográfico da organização e as expectativas do mercado.

Um programa de melhoramento de variedades requer equipes interdisciplinares, com especialistas em genética, melhoramento, biotecnologia, fitopatologia, zoologia, sementes, entre outras áreas. Também exige infraestrutura, incluindo campos de melhoramento e experimentação, galpões, máquinas, veículos, laboratórios, equipamentos e casas de vegetação; germoplasma, como coleções de variedades e linhagens que proporcionem diversidade genética; capacidade biotecnológica; e estrutura para a multiplicação de sementes básicas.

É necessário enfatizar que tudo isso demanda muito dinheiro e esforço. Além disso, os investimentos precisam ser mantidos e ampliados ao longo do tempo para que o programa seja bem-sucedido e produza variedades de alto impacto, capazes de oferecer vantagens reais aos produtores e consumidores.

Portanto, o custo depende de todos esses fatores. Como existe grande variabilidade, esse valor difere entre as empresas obtentoras.

AgriBrasilis – O que determina a legislação sobre os royalties de sementes? Quais são os direitos do agricultor?

Daniel Ploper – A Lei nº 20.247 de Sementes e Criações Fitogenéticas, de 1973, estabelece três exceções ao direito exclusivo do obtentor: a exceção para consumo; a do agricultor, que lhe permite utilizar sementes de uma variedade protegida para plantio em sua própria propriedade e para uso próprio; e a do melhorista, que pode utilizar livremente uma variedade protegida, desde que seu uso não seja repetitivo, como fonte de germoplasma para criar e comercializar uma nova variedade vegetal.

A segunda exceção gera um problema, principalmente no cultivo de espécies autógamas e de reprodução agâmica. [Nota da redação: espécies autógamas, como soja e trigo, reproduzem-se por autofecundação. As de reprodução agâmica são multiplicadas por partes da planta, como mudas ou tubérculos].

É uma prática consolidada e reconhecida por lei que o produtor reserve e utilize gratuitamente sua própria semente. Atualmente, busca-se alterar a legislação para estabelecer mecanismos que permitam reconhecer o direito do obtentor e, assim, remunerar o investimento em pesquisa e desenvolvimento relacionado à semente escolhida pelo produtor para o plantio.

AgriBrasilis – Qual será o alcance efetivo do controle da identidade das novas variedades no combate ao mercado ilegal de sementes?

Daniel Ploper – Atualmente, existem metodologias baseadas em marcadores moleculares que permitem identificar uma variedade e diferenciá-la nos respectivos registros de proteção, com ou sem observações em campo, além de possibilitarem o controle do comércio. Cada variedade possui sua própria “impressão digital genética”. Além disso, cada evento biotecnológico presente na variedade pode ser identificado. Isso permite sua detecção ao longo de todo o ciclo, desde a semente e a lavoura até o grão produzido.

A utilidade e o impacto desse controle dependerão do sistema de verificação implementado, desde que exista rastreabilidade da mercadoria associada ao produtor, lote, transporte, armazenamento e exportador.

AgriBrasilis – O que mudaria para a pesquisa, os preços das sementes e o agricultor caso a Argentina aderisse à Convenção Internacional para a Proteção das Obtenções Vegetais (UPOV 91)?

Daniel Ploper – Uma das principais questões é que o direito ao uso próprio é facultativo na UPOV 91, enquanto não estava especificamente definido na legislação da UPOV 78. Portanto, podem existir exceções conforme o que for estabelecido na legislação de cada país. [Nota da redação: UPOV 78 e UPOV 91 são versões da convenção internacional sobre proteção de novas variedades vegetais. A versão de 1991 amplia os direitos dos obtentores e permite que cada país autorize o uso próprio dentro de determinados limites].

Isso aumentaria a utilização de sementes certificadas e permitiria controlar legalmente o mercado, proporcionando maior retorno do investimento aos obtentores e, consequentemente, possibilitando novos investimentos.

AgriBrasilis – Para quais doenças da soja a resistência genética já permite reduzir as aplicações de fungicidas e as perdas de produtividade?

Daniel Ploper – Existe resistência genética a diversas doenças da soja. Para algumas delas, a resistência genética permite substituir a aplicação de fungicidas foliares, como no caso da mancha olho-de-rã, causada pelo fungo Cercospora sojina.

Esse patógeno apresenta raças ou patótipos capazes de superar alguns genes de resistência, embora um desses genes ainda permaneça eficaz contra todas as raças.

Também existem genes de resistência à ferrugem-asiática da soja, causada por Phakopsora pachyrhizi. Entretanto, como esse patógeno apresenta alta variabilidade, a eficácia desses genes costuma durar pouco tempo.

Há ainda genes de resistência a algumas podridões radiculares que podem reduzir as aplicações de fungicidas nas sementes e no solo.

 

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