Preço do café sobe, mas rentabilidade do cafeicultor mineiro continua pressionada

Published on: July 19, 2026

“A lavoura cafeeira é como uma indústria a céu aberto, exposta a fatores como geadas, chuvas de granizo, temperaturas elevadas…”

Simão Pedro de Lima é diretor-presidente executivo da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado – Expocacer, bacharel em Direito pelo Centro Universitário do Cerrado Patrocínio e em Administração pela FCG SG, com mestrado em Educação e Gestão Organizacional pelo Centro Universitário do Triângulo e pós-graduado em Negócios e Comércio pela Unicerp.

Simão Pedro de Lima, diretor-presidente executivo da Expocacer


AgriBrasilis – O que está impactando os custos do café?

Simão Pedro de Lima – A cesta de custos da produção de café engloba diferentes itens, como fertilizantes, defensivos agrícolas, mão de obra, combustíveis, energia elétrica e logística, entre outras despesas. Nos últimos anos, houve um aumento significativo nos custos dos insumos diretos, sobretudo de fertilizantes e defensivos agrícolas. Parte dessas altas decorreu de fatores externos, como a guerra na Ucrânia. Também ocorreram aumentos expressivos nos custos de combustíveis e mão de obra, além da forte elevação do custo financeiro. Hoje, praticamente não há taxas subsidiadas para a atividade agrícola.

Também é preciso considerar as mudanças climáticas, que afetam a produção de café desde 2015. Em 2021, uma geada atingiu as regiões produtoras e afetou cerca de 35% da área produtiva do Cerrado Mineiro. Isso gerou custos extraordinários para a recuperação das lavouras. Em muitos casos, foi necessário erradicar os cafezais e realizar novos plantios, deixando os produtores sem produção por aproximadamente três anos. Esse conjunto de fatores explica o aumento dos custos de produção.

AgriBrasilis – O preço do grão quase dobrou nos últimos cinco anos. É legítima a alegação de margens pressionadas?

Simão Pedro de Lima – Embora tenha ocorrido um aumento significativo nos preços do café verde, a maioria dos produtores não participou efetivamente dessa valorização. Na cafeicultura, é comum que os produtores negociem antecipadamente seus cafés, inclusive de duas a três safras à frente. Quando começou o primeiro movimento expressivo de alta, em 2022, dois fatores impediram que o produtor aproveitasse melhor essa valorização: o grande volume já vendido no mercado futuro a preços inferiores aos praticados no mercado físico e a quebra de produção provocada pelas geadas de 2021, agravada pela falta de chuvas nos anos seguintes.

Quando o mercado atingiu R$ 1,3 mil por saca de 60 kg, aproximadamente 50% a 60% da produção já havia sido vendida antecipadamente por valores entre R$ 500 e R$ 600 por saca. Mais recentemente, quando os preços se aproximaram de R$ 2,5 mil, grande parte da produção já estava comercializada por valores entre R$ 800 e R$ 1 mil. Por isso, podemos afirmar que a maioria dos produtores não participou efetivamente do período de preços mais elevados.

Além disso, entre 2022 e 2025, a produção permaneceu abaixo do potencial produtivo das lavouras em razão das adversidades climáticas. Isso reduziu significativamente a produtividade e, consequentemente, a rentabilidade dos cafeicultores.

AgriBrasilis – Quais são as consequências dos últimos anos de clima instável e mercado volátil?

Simão Pedro de Lima – A volatilidade do mercado cafeeiro tem sido influenciada pelos fundamentos da produção, especialmente pelas condições climáticas desfavoráveis, pelos fatores geopolíticos mundiais e pelos movimentos especulativos de fundos nas bolsas de Nova York e Londres. Recentemente, em um único dia, os contratos de café negociados na Bolsa de Nova York registraram uma alta de 5,3 mil pontos, um movimento sem precedentes no mercado cafeeiro.

Essa volatilidade gera insegurança e apreensão entre os produtores, que não dispõem de instrumentos adequados de hedge para precificar a produção. Desde 2022, os contratos futuros vêm apresentando um spread negativo, o que desestimula as vendas a termo. Em tese, o mercado a termo é um bom instrumento de hedge, pois permite ao produtor travar preços e proteger seus custos de produção diante das oscilações futuras do mercado.

Os baixos estoques, associados às safras menores dos últimos anos, aos gargalos logísticos para exportação e à instabilidade geopolítica mundial, reforçam essa elevada volatilidade do mercado cafeeiro.

AgriBrasilis – A crise recente ainda pesa no endividamento?

Simão Pedro de Lima – Sim. Nos últimos cinco anos, a produtividade permaneceu baixa, a produção ficou aquém de seu potencial e os custos aumentaram. Além disso, os produtores não participaram efetivamente das altas de preços pelos motivos já expostos. A frustração das safras, associada ao aumento dos custos de produção, levou a uma maior alavancagem dos produtores no sistema financeiro.

A agricultura, de modo geral, enfrenta uma situação semelhante. Tanto que, em 15 de julho, foi publicada a Medida Provisória nº 1.376/2026, que autoriza a criação de linhas de crédito destinadas à liquidação ou amortização de dívidas rurais de produtores afetados por perdas de safra.

AgriBrasilis – Qual é a situação da safra em Minas Gerais?

Simão Pedro de Lima – A safra de 2026 em Minas Gerais apresenta boas perspectivas em termos quantitativos. A estimativa é de que supere, em volume, a safra de 2020, até então a maior já colhida. Esse resultado se deve às condições climáticas favoráveis durante o período de desenvolvimento e enchimento dos grãos.

Em termos qualitativos, no entanto, esta pode não ser a melhor safra. Chuvas incomuns registradas em julho, em plena colheita, provocaram a queda de muitos frutos maduros das plantas. Estima-se que aproximadamente 20% dos frutos tenham caído no chão, o que pode afetar tanto o aspecto físico dos grãos quanto a qualidade da bebida.

A colheita ainda está em andamento. No Cerrado Mineiro, estimamos que cerca de 45% da safra já tenha sido colhida e 20% da produção, beneficiada.

AgriBrasilis – Quais têm sido as principais demandas dos cooperados da Expocacer?

Simão Pedro de Lima – Eu não chamaria de demandas, mas de preocupações. Elas não são exclusivas dos cooperados da Expocacer, mas de toda a cafeicultura. A principal delas está relacionada às condições climáticas.

A lavoura cafeeira é como uma indústria a céu aberto, exposta a fatores como geadas, chuvas de granizo, temperaturas elevadas, grandes amplitudes térmicas e secas. Há mais de dez anos, as regiões cafeeiras enfrentam uma sucessão de adversidades, com períodos de geada, seca e, mais recentemente, chuvas extemporâneas que afetam a produção.

Entre as variáveis externas que afetam a cafeicultura, o clima é aquela sobre a qual o produtor tem menos controle e, ao mesmo tempo, a que causa maior impacto. Mitigar os efeitos das adversidades climáticas é o grande desafio da cafeicultura no presente e também no futuro.

 

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