Guerra no Oriente Médio valoriza etanol brasileiro, mas usinas seguem sob pressão

Published on: May 13, 2026

“O setor sucroenergético brasileiro vive um momento de transição…”

Jacyr Costa Filho é sócio da AgroAdvice, produtor rural e diretor financeiro da FIESP. Formado em engenharia civil e administração de empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com especialização em marketing pelo IMD de Lausanne, Suíça.

Jacyr Costa Filho, sócio da AgroAdvice


AgriBrasilis – Como o senhor vê o momento atual do setor sucroenergético no Brasil?

Jacyr Costa – O setor sucroenergético brasileiro vive um momento de transição. Nos últimos anos, tivemos safras excepcionais, com recordes históricos na exportação de açúcar e um volume jamais alcançado na oferta interna de etanol, incluindo aquele proveniente do milho. Isso demonstra a força estrutural do setor.

Agora, o cenário é mais desafiador. Os preços internacionais do açúcar recuaram de forma expressiva, com queda anual de 22%, a maior desde 2017, resultado de excesso de oferta e importações abaixo do esperado em mercados-chave como Índia e China. Isso comprimiu as margens das usinas e reduziu investimentos no setor.

Do lado do etanol, o quadro é positivo. A alta do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio, valorizou o biocombustível como alternativa estratégica. O governo, que já havia aumentado a mistura de etanol na gasolina de 27% para 30%, estuda elevar para 32%. Reflexo disso é o fato de que mais de dois terços da cana processada no início da safra 2026/27 já foram direcionados ao etanol. Aguardamos ainda um reajuste nos preços da gasolina pela Petrobras, hoje 30% abaixo dos preços internacionais.

Vale destacar que o consumo do biocombustível evitou a emissão de 50 milhões de toneladas de gases de efeito estufa no ano passado, recorde histórico para o setor.

AgriBrasilis – Como a guerra no Oriente Médio afeta o mercado brasileiro de biocombustíveis?

Jacyr Costa – O conflito funcionou como acelerador de algo já em curso no Brasil, que é o reconhecimento dos biocombustíveis não apenas como agenda ambiental, mas como instrumento de soberania energética. Com a escalada do conflito entre EUA, Israel e Irã, os biocombustíveis passaram a ocupar o espaço de ativos estratégicos de segurança energética, reduzindo a exposição do Brasil a choques externos de petróleo e derivados.

O governo já havia elevado a mistura de etanol na gasolina de 27% para 30% e do biodiesel no diesel de 14% para 15%. Agora, como resposta à escalada dos preços do petróleo, estuda antecipar a mistura de etanol para 32% e de biodiesel para 16%.

O Brasil atravessa essa crise com menos impacto do que outros países, graças à produção robusta e à capilaridade de distribuição de biocombustíveis. Porém, não há blindagem total: o país ainda depende de importações de diesel e segue vulnerável à volatilidade do frete internacional.

O bom exemplo do Brasil tem inspirado outros países. Índia, Indonésia, Argentina e EUA também avançam no caminho da mistura de etanol à gasolina.

AgriBrasilis – Que efeitos as políticas públicas recentes tiveram sobre a competitividade do etanol?

Jacyr Costa – O avanço regulatório foi significativo. A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024, estabelece mistura mínima de 22% de etanol na gasolina, podendo chegar a 35%, garantindo previsibilidade e estimulando investimentos de longo prazo. A lei também promove a integração de iniciativas como o RenovaBio, o Programa Mover e o Proconve.

Porém, é preciso ser honesto sobre os limites. O marco regulatório criou incentivos robustos, mas o alto custo de capital neutralizou parte desse benefício para as usinas mais endividadas. O próximo passo essencial é garantir condições de crédito adequadas para viabilizar os investimentos previstos.

AgriBrasilis – Por que tantas usinas entraram em crise? O caso Raízen indica piora do cenário?

Jacyr Costa – A crise não tem causa única. Os dois fatores mais relevantes foram o alto endividamento contraído num período de expansão acelerada e agravado pela forte alta dos juros, além dos choques climáticos que reduziram a produção de cana. No caso da Raízen, somaram-se investimentos que não entregaram os retornos esperados, como o etanol de segunda geração.

É importante não confundir crise financeira com fraqueza estrutural. Empresas com menor alavancagem saíram fortalecidas das últimas safras. O problema das usinas endividadas é real, mas sinaliza não o enfraquecimento do setor. Na verdade, esse problema sinaliza a necessidade de um modelo de financiamento mais adequado ao perfil cíclico do negócio.

AgriBrasilis – O que esperar do setor sucroenergético nos próximos 5 a 10 anos?

Jacyr Costa – A perspectiva é positiva. O Brasil construiu uma plataforma ímpar: domínio tecnológico da cana, infraestrutura consolidada de etanol e um marco regulatório que aponta para crescimento sustentado da demanda por biocombustíveis.

Um dos vetores mais promissores é o ganho de produtividade. O CTC inaugurou em Piracicaba, SP, a primeira fábrica de sementes sintéticas de cana do mundo, com o objetivo de dobrar a produtividade dos canaviais brasileiros até 2040, sem expansão de área.

Novos mercados também se abrem: o Combustível Sustentável de Aviação (SAF), o e-bunker para transporte marítimo, o biometano e o etanol de milho diversificam as fontes de receita bem além do açúcar e do etanol para automóveis.

O Brasil tem vocação, tecnologia e ativos para liderar a bioenergia global na próxima década. As condições para isso nunca estiveram tão maduras.

 

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