“…a ausência do mecanismo de monitoramento independente e rastreabilidade enfraquece o controle sobre o avanço da soja em áreas de floresta nativa…”
Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil, engenheiro florestal e mestre em ciências ambientais pela USP.
AgriBrasilis – Qual foi o principal ganho ambiental da Moratória da Soja?
Voivodic – A Moratória da Soja é, sem dúvida, o acordo voluntário multissetorial de maior eficácia já implementado para o controle do desmatamento na Amazônia. Desde 2008, apenas 2,1% do desmatamento registrado nos municípios monitorados resultou em plantio de soja, e mais de 13.000 km² de floresta foram preservados graças ao acordo. O dado que mais ilustra esse sucesso é a combinação entre produção e conservação: entre 2009 e 2022, os municípios monitorados registraram redução de 69% no desmatamento, enquanto a área plantada de soja no bioma Amazônia cresceu 344%. Isso prova que proteção ambiental e expansão agrícola responsável são compatíveis.
AgriBrasilis – Quais as consequências imediatas do fim do acordo?
Voivodic – A saída das empresas do acordo representa um retrocesso grave, com consequências em múltiplas frentes. No campo ambiental, a ausência do mecanismo de monitoramento independente e rastreabilidade enfraquece o controle sobre o avanço da soja em áreas de floresta nativa. A Amazônia é um regulador climático essencial para todo o continente: seus “rios voadores” garantem o regime de chuvas do qual dependem a segurança energética, hídrica e alimentar do país. Deteriorar esse equilíbrio afeta diretamente a agricultura em regiões distantes, como o sudeste e o sul do Brasil.
No plano econômico, as consequências do fim do acordo também são significativas: importantes mercados em todo o mundo demandam commodities livres de desmatamento, e ignorar essas exigências compromete a competitividade do agronegócio brasileiro e fecha portas para mercados valiosos. A reputação construída ao longo de quase duas décadas pelo setor está em risco.
AgriBrasilis – O enfraquecimento da Moratória vira precedente que pode afetar outros acordos semelhantes?
Voivodic – A Moratória da Soja foi concebida como um modelo replicável e chegou a inspirar discussões sobre acordos similares para outras commodities. Ao ser enfraquecida, ela envia um sinal negativo ao mercado e à sociedade civil de que acordos voluntários multissetoriais podem ser abandonados quando surgem pressões de curto prazo.
A Moratória da Soja não foi extinta por imposição legal: ela ainda existe, porém foi conscientemente esvaziada pela decisão voluntária de empresas de se retirar, apesar de terem plena possibilidade legal de permanecer. Isso fragiliza a credibilidade de mecanismos semelhantes em outros biomas, como o Cerrado, que já enfrenta altíssima pressão de conversão e conta com proteção legal muito mais reduzida do que a Amazônia.
AgriBrasilis – Quais os melhores indicadores para detectar piora em desmatamento e queimadas?
Voivodic – O WWF-Brasil acompanha uma série de ferramentas e sistemas de monitoramento consolidados pela ciência brasileira. Para o desmatamento, o PRODES (do INPE) é a referência oficial, com dados anuais de corte raso na Amazônia. Para alertas em tempo quase real, o DETER (também do INPE) detecta indícios de supressão de vegetação em ciclos curtos, sendo essencial para ações de fiscalização. O MapBiomas complementa esse conjunto com análises anuais de uso e cobertura do solo para todos os biomas brasileiros, permitindo acompanhar tendências de longo prazo com alta resolução espacial.
Dados do PRODES, divulgados em novembro de 2025, já apontavam que o Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento de desmatamento no período recente. Para queimadas, o monitoramento de focos de calor pelo INPE e o BDQueimadas são indicadores fundamentais. O Cerrado também deve ser acompanhado de perto, dado que o cultivo da soja expandiu principalmente nesse bioma, onde não existe acordo de desmatamento zero com o setor privado.
AgriBrasilis – Sem a Moratória, quais medidas são prioritárias para evitar piora do desmatamento ligado à soja?
Voivodic – Individualmente, as empresas devem manter e ampliar suas práticas de exclusão da soja oriunda de áreas de desmatamento das suas cadeias de fornecimento e produção, em linha com o desejo dos consumidores em todo o mundo. O fortalecimento de iniciativas de monitoramento independente de desmatamento zero são ferramentas essenciais para garantir que a soja brasileira mantenha acesso aos mercados internacionais mais exigentes.
Além disso, é fundamental investir em rastreabilidade georreferenciada dos fornecedores, utilizando instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR). O Brasil possui um vasto potencial de terras degradadas que podem ser reabilitadas e incorporadas à produção agrícola, sem a necessidade de avançar sobre novas áreas de floresta, esse deve ser o caminho prioritário para a expansão produtiva. Por fim, o fortalecimento de iniciativas de monitoramento independente de desmatamento zero são ferramentas essenciais para garantir que a soja brasileira mantenha acesso aos mercados internacionais mais exigentes.
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