“A restrição adotada pela China não tem qualquer relação com sanidade…”
Roberto Perosa é presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne – ABIEC, e ex-secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura. Perosa é formado em direito pela Universidade Paulista, com especializações em relações governamentais, direito internacional, ética empresarial e responsabilidade social pela FGV e Insper.
AgriBrasilis – Por que a China restringiu as compras de carne bovina do Brasil?
Roberto Perosa – A restrição adotada pela China não tem qualquer relação com sanidade. A carne bovina brasileira é reconhecida internacionalmente, tanto que exportamos para 177 países. O que a China aplicou foi uma medida de salvaguarda, que é um instrumento de proteção concorrencial. Eles alegam que o volume de carne importada estaria prejudicando a produção doméstica chinesa. A produção local tem custos elevados, porque depende de insumos importados e enfrenta limitações estruturais. Mesmo explicando que a carne brasileira exportada à China não concorre diretamente com a produção local, pois complementa a dieta chinesa com cortes e usos diferentes, a medida avançou. Infelizmente, o Brasil foi o país mais impactado na redistribuição das cotas.
AgriBrasilis – Quais os riscos da dependência do Brasil em relação ao mercado chinês?
Roberto Perosa – O principal risco é a concentração. Em 2025, exportamos cerca de 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China. Para 2026, a cota definida é de 1,106 milhão de toneladas, o que representa uma redução de aproximadamente 35%, algo em torno de 600 mil toneladas. Não existe outro mercado no mundo capaz de absorver esse volume adicional com a mesma rapidez e escala. Isso gera preocupação para toda a cadeia, porque esse excedente impacta a indústria, os pecuaristas e pode pressionar preços.
AgriBrasilis – O setor ainda sofre efeitos do “tarifaço” dos EUA, cancelado em novembro de 2025?
Roberto Perosa – O tarifaço teve impacto, sim, especialmente econômico. Os Estados Unidos vivem o menor ciclo pecuário dos últimos 80 anos e são um mercado altamente demandante e rentável para a carne brasileira. Em 2025, tínhamos expectativa de exportar entre 400 e 450 mil toneladas, mas acabamos enviando cerca de 270 mil toneladas. Esse volume deixou de ir para um mercado mais remunerador e precisou ser realocado para outros destinos, principalmente na Ásia, com margens menores. Em termos de volume total exportado, conseguimos compensar, mas deixamos de capturar valor. Com a retirada das tarifas, os EUA voltam a ser um destino muito relevante em 2026.
AgriBrasilis – Quais as consequências de cotas e sobretaxas para o setor?
Roberto Perosa – Cotas e sobretaxas distorcem o fluxo natural do comércio. No caso da China, além da limitação de volume, há uma sobretaxa de 55% fora da cota, que se soma à tarifa regular de 12%, tornando praticamente inviável competir fora desse limite. Isso dificulta o planejamento da indústria, afeta decisões de abate, pressiona margens e pode gerar desequilíbrios ao longo da cadeia produtiva. Quando grandes volumes deixam de ter destino claro, o impacto chega rapidamente ao campo, ao emprego e à renda, já que a pecuária está presente em todos os municípios do Brasil.
AgriBrasilis – Por que o Brasil se tornou alvo nessas disputas comerciais?
Roberto Perosa – Porque o Brasil se tornou o maior produtor e o maior exportador mundial de carne bovina. Temos uma condição única de produção: grande extensão territorial, produção majoritariamente a pasto, custos competitivos e alta eficiência industrial. Isso faz com que a carne brasileira chegue aos mercados internacionais com preços mais baixos do que os praticados por produtores locais em vários países. Em momentos de pressão interna, alguns governos recorrem a medidas de proteção para defender seus produtores, e o Brasil acaba sendo diretamente afetado por essa competitividade.
AgriBrasilis – Diante desse contexto, como o país conseguiu bater recorde de exportações em 2025?
Roberto Perosa – Conseguimos bater recorde porque a pecuária brasileira vive um momento muito positivo. Em 2025, exportamos cerca de 3,5 milhões de toneladas, alcançando quase US$ 18 bilhões em receita, com vendas para 177 países. Houve realocação de volumes quando enfrentamos barreiras, especialmente nos Estados Unidos, direcionando mais carne para a Ásia. Isso mostra a capacidade do Brasil de se adaptar rapidamente, a capilaridade dos nossos mercados e o trabalho conjunto do pecuarista, da indústria e das negociações internacionais feitas ao longo dos últimos anos.
AgriBrasilis – Que medida o setor poderia adotar para minimizar essas vulnerabilidades?
Roberto Perosa – A principal estratégia é diversificação de mercados. Quanto mais países tivermos abertos, menor será a dependência de um único destino. Por isso, estamos dialogando com o governo para avançar em mercados como Japão, Coreia do Sul, Turquia, Vietnã e outros. Ter múltiplas opções permite escolher, em cada momento, os mercados mais adequados para cada tipo de corte, reduzindo riscos e garantindo estabilidade para toda a cadeia produtiva da pecuária brasileira.
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