“Precisa ser muito eficiente, controlar bem as operações e buscar produtividade acima da média em algumas áreas para fechar a conta….”
Lucas Ubiali é engenheiro agrônomo, pesquisador da Fundação Procafe e gestor do Núcleo de Inteligência para o Fortalecimento da Cafeicultura. Também é produtor rural em Pedregulho, SP, na Alta Mogiana, onde administra uma fazenda de 100 hectares certificada internacionalmente e premiada pela produção de cafés especiais, em parceria com Fernanda Maciel.

Lucas Ubiali e Fernanda Maciel, produtores de café
AgriBrasilis – Quais são as principais dificuldades e incertezas para o agricultor na sua região?
Lucas Ubiali – Em Alta Mogiana, especificamente na região de Pedregulho, convivemos com alguns desafios bem claros.
Primeiro, a questão climática: os veranicos têm sido mais frequentes, chuvas muito irregulares e temperaturas acima do normal, o que afeta diretamente a florada, o pegamento e o enchimento dos frutos.
Outro ponto é o custo elevado de produção, principalmente fertilizantes, mão de obra e defensivos agrícolas. A mão de obra está cada vez mais difícil de contratar e manter.
E claro, temos a incerteza do mercado: volatilidade do dólar, preço do café oscilando muito, e isso deixa qualquer planejamento de médio prazo mais complicado.
AgriBrasilis – Como está o acesso ao crédito?
Lucas Ubiali – O crédito existe, mas não está fácil.
As instituições até oferecem linhas de crédito, mas a burocracia aumentou e as taxas subiram. O que antes era uma liberação mais rápida, hoje demora. Exige mais garantias e análises.
O Moderfrota e Pronamp continuam sendo alternativas, mas o volume disponível não acompanha a demanda.
Então, muitas vezes, acabamos tendo que buscar crédito comercial, que possui juros mais elevados, ou negociar prazos diretamente com fornecedores.
AgriBrasilis – Está valendo a pena produzir nesta safra? Qual é a situação dos custos de produção?
Lucas Ubiali – Produzir café continua valendo a pena, mas a margem está apertada.
Os custos ainda estão em patamares muito altos. Fertilizantes melhoraram um pouco em relação ao pico do pós-pandemia, mas continuam caros. Mão de obra está pesando bastante, embora a mecanização seja uma realidade na região, ela sozinha não consegue ajustar os custos.
O preço do café está bom, mas não compensa totalmente o aumento de custos. Desde 2021 estamos carregando alguns ajustes financeiros e lavouras menos produtivas devido aos desafios que o clima nos trouxe e intensificou desde então.
Então a gente trabalha mais no limite: precisa ser muito eficiente, controlar as operações com rigor e buscar produtividade acima da média em algumas áreas para fechar a conta.
AgriBrasilis – Quando e como o senhor decide o que vai plantar, o tamanho da área e a janela de compra de insumos?
Lucas Ubiali – Essas decisões tomamos sempre com base em três pontos: mercado, clima e situação da fazenda.
Planejamos novos plantios com pelo menos um ano de antecedência. Analisamos disponibilidade de água, condição de solo, produtividade das áreas antigas e custo de implantação.
Já a compra de insumos procuramos antecipar ao máximo.
Quando conseguimos travar preços antes da alta da safra, geralmente no final do ano ou início do seguinte, fazemos. Mas é sempre uma aposta: se esperar muito, corre risco de subir; se antecipar demais, às vezes o mercado cai.
O tamanho da área plantada depende do caixa, do crédito e da mão de obra disponível.
AgriBrasilis – Que novas tecnologias e práticas o senhor tem adotado?
Lucas Ubiali – Aqui na região temos adotado diversas práticas novas, e nós buscamos na fazenda avançar e melhorar a cada ano.
Hoje usamos
- Adubação mais parcelada e baseada em análise de solo e folha;
- Mapeamento de produtividade e geolocalização das operações;
- Irrigação localizada onde há disponibilidade hídrica;
- Bioestimulantes e condicionadores de solo, avaliando retorno;
- Plantio de mix de sementes com plantas de cobertura para melhorar as condições biológicas do solo.
- Estamos trabalhando de forma mais intensiva com sistemas de manejo integrado, principalmente para posicionar defensivos biológicos e fazer com que a operação fique mais efetiva.
A ideia é sempre buscar produtividade sustentável, reduzir desperdícios e melhorar previsibilidade.
