Produtor de café trabalha no limite para fechar a conta em SP

Published on: December 4, 2025

“Precisa ser muito eficiente, controlar bem as operações e buscar produtividade acima da média em algumas áreas para fechar a conta….”

Lucas Ubiali é engenheiro agrônomo, pesquisador da Fundação Procafe e gestor do Núcleo de Inteligência para o Fortalecimento da Cafeicultura. Também é produtor rural em Pedregulho, SP, na Alta Mogiana, onde administra uma fazenda de 100 hectares certificada internacionalmente e premiada pela produção de cafés especiais, em parceria com Fernanda Maciel.


Lucas Ubiali e Fernanda Maciel, produtores de café

AgriBrasilis – Quais são as principais dificuldades e incertezas para o agricultor na sua região?

Lucas Ubiali – Em Alta Mogiana, especificamente na região de Pedregulho, convivemos com alguns desafios bem claros.

Primeiro, a questão climática: os veranicos têm sido mais frequentes, chuvas muito irregulares e temperaturas acima do normal, o que afeta diretamente a florada, o pegamento e o enchimento dos frutos.

Outro ponto é o custo elevado de produção, principalmente fertilizantes, mão de obra e defensivos agrícolas. A mão de obra está cada vez mais difícil de contratar e manter.

E claro, temos a incerteza do mercado: volatilidade do dólar, preço do café oscilando muito, e isso deixa qualquer planejamento de médio prazo mais complicado.

AgriBrasilis – Como está o acesso ao crédito?

Lucas Ubiali – O crédito existe, mas não está fácil.

As instituições até oferecem linhas de crédito, mas a burocracia aumentou e as taxas subiram. O que antes era uma liberação mais rápida, hoje demora. Exige mais garantias e análises.

O Moderfrota e Pronamp continuam sendo alternativas, mas o volume disponível não acompanha a demanda.

Então, muitas vezes, acabamos tendo que buscar crédito comercial, que possui juros mais elevados, ou negociar prazos diretamente com fornecedores.

AgriBrasilis – Está valendo a pena produzir nesta safra? Qual é a situação dos custos de produção?

Lucas Ubiali – Produzir café continua valendo a pena, mas a margem está apertada.

Os custos ainda estão em patamares muito altos. Fertilizantes melhoraram um pouco em relação ao pico do pós-pandemia, mas continuam caros. Mão de obra está pesando bastante, embora a mecanização seja uma realidade na região, ela sozinha não consegue ajustar os custos.

O preço do café está bom, mas não compensa totalmente o aumento de custos. Desde 2021 estamos carregando alguns ajustes financeiros e lavouras menos produtivas devido aos desafios que o clima nos trouxe e intensificou desde então.

Então a gente trabalha mais no limite: precisa ser muito eficiente, controlar as operações com rigor e buscar produtividade acima da média em algumas áreas para fechar a conta.

AgriBrasilis – Quando e como o senhor decide o que vai plantar, o tamanho da área e a janela de compra de insumos?

Lucas Ubiali – Essas decisões tomamos sempre com base em três pontos: mercado, clima e situação da fazenda.

Planejamos novos plantios com pelo menos um ano de antecedência. Analisamos disponibilidade de água, condição de solo, produtividade das áreas antigas e custo de implantação.

Já a compra de insumos procuramos antecipar ao máximo.

Quando conseguimos travar preços antes da alta da safra, geralmente no final do ano ou início do seguinte, fazemos. Mas é sempre uma aposta: se esperar muito, corre risco de subir; se antecipar demais, às vezes o mercado cai.

O tamanho da área plantada depende do caixa, do crédito e da mão de obra disponível.

AgriBrasilis – Que novas tecnologias e práticas o senhor tem adotado?

Lucas Ubiali – Aqui na região temos adotado diversas práticas novas, e nós buscamos na fazenda avançar e melhorar a cada ano.

Hoje usamos

  • Adubação mais parcelada e baseada em análise de solo e folha;
  • Mapeamento de produtividade e geolocalização das operações;
  • Irrigação localizada onde há disponibilidade hídrica;
  • Bioestimulantes e condicionadores de solo, avaliando retorno;
  • Plantio de mix de sementes com plantas de cobertura para melhorar as condições biológicas do solo.
  • Estamos trabalhando de forma mais intensiva com sistemas de manejo integrado, principalmente para posicionar defensivos biológicos e fazer com que a operação fique mais efetiva.

A ideia é sempre buscar produtividade sustentável, reduzir desperdícios e melhorar previsibilidade.