Impactos da IA no agro: aplicações, capacitação e riscos

Published on: July 23, 2026

“O agrônomo que usa IA vai substituir o que não usa…”

Guilherme Sanches é idealizador do projeto OagronomIA – O agro no Mundo da IA, que tem como objetivo capacitar profissionais do agro na era da Inteligência Artificial. Engenheiro agrícola pela Unicamp, com mestrado, doutorado e pós-doutorado pelas principais universidades paulistas (USP/Unicamp/Unesp), especialista em Inteligência Artificial e Big Data (ICMC/USP).


AgriBrasilis – Até onde pode chegar a inteligência artificial no agro?

Guilherme Sanches – Sinceramente, ninguém sabe. E quem disser que sabe está chutando. A velocidade com que essa tecnologia avança é tão grande que qualquer previsão de longo prazo hoje envelhece em seis meses.

Por isso eu prefiro inverter a pergunta. Em vez de tentar adivinhar até onde a IA vai chegar, o mais útil é olhar para os nossos problemas e vislumbrar a IA avançando para resolvê-los. E o maior deles é a falta de mão de obra no campo. Muito em breve não teremos gente para colher uma laranja, plantar uma lavoura ou operar um trator. O campo está envelhecendo e o jovem não está voltando.

Nesse cenário, IA e automação deixam de ser modismo e viram necessidade. É uma discussão de segurança alimentar, não de produtividade. A China entendeu isso faz tempo e está robotizando tudo de forma agressiva. Então a resposta que eu daria é: a IA vai chegar até onde precisarmos que ela chegue para continuarmos produzindo alimento. O quanto antes olharmos e nos adaptarmos isso será melhor, seja para nós, nossos negócios ou nosso país.

AgriBrasilis – Quais são as aplicações atuais mais relevantes?

Guilherme Sanches – Vale separar em duas frentes, porque são maturidades bem diferentes.

A primeira é a IA não generativa, ou seja, Visão Computacional e Machine Learning, que já estão no agro há um bom tempo dentro de máquinas e softwares, muitas vezes sem que o produtor perceba. Monitoramento de lavouras, identificação de pragas, doenças e plantas daninhas, previsão de produtividade e de clima, análise de imagens de satélite e drones, manutenção preditiva de máquinas. O exemplo mais emblemático é a pulverização seletiva, em que câmeras e algoritmos identificam a planta daninha em tempo real e aplicam o herbicida só onde é necessário. Existem casos de redução de mais de 50% no uso de herbicida.

A segunda é a IA generativa, o ChatGPT, o Claude, o Gemini. Aqui estamos no começo. Ela já ajuda a tirar dúvidas, revisar documentos, pesquisar mais rápido, analisar dados, organizar informação e elaborar relatórios e consultas técnicas. É uma frente com potencial enorme, mas cujo uso no campo ainda é tímido e os ganhos reais em produtividade e custo ainda são pouco mensurados.

AgriBrasilis – Como essa tecnologia é utilizada nas recomendações de manejo, nutrição de plantas e controle fitossanitário?

Guilherme Sanches – Existe uma empolgação enorme com isso e eu preciso ser honesto: a IA genérica (aquela que acessamos na internet, pelo chat), usada sem preparo, entrega recomendação medíocre. Você pergunta sobre adubação para uma ferramenta de IA e recebe uma resposta bonita, bem escrita e completamente rasa. Serve para um trabalho de faculdade, não para uma decisão em cima de mil hectares.

O que muda o jogo é contexto. Quando você alimenta a IA com a análise de solo daquele talhão, o histórico de produtividade, o boletim de recomendação da região, o resultado dos ensaios da cooperativa e os produtos que você realmente tem disponível, a resposta passa a fazer sentido agronômico. É a diferença entre uma IA que responde qualquer coisa e uma IA treinada com conteúdo relevante.

Na prática hoje, no manejo e na nutrição, a IA ajuda muito mais no tratamento e na interpretação dos dados: organizar análises de solo, cruzar informação de talhões, gerar mapas e zonas de manejo, comparar resultados de ensaios e transformar tudo isso em relatório. No fitossanitário, a Visão Computacional já identifica alvo e intensidade da infestação, e o Machine Learning ajuda a apontar a melhor janela de aplicação considerando vento, temperatura, umidade e previsão de chuva.

Mas nada disso funciona sozinho. Sem capacitação do profissional e sem treinar a ferramenta com o contexto certo, o que você recebe é uma recomendação genérica com cara de recomendação técnica. E isso é pior do que não usar.

AgriBrasilis – Que perfil de profissionais do agro serão os mais impactados pela IA?

Guilherme Sanches – Antes de responder, uma observação: eu enxergo o agro como um setor cheio de oportunidade justamente porque ele ainda foi pouco impactado. Marketing, computação, jurídico, design, todos esses setores já levaram um baque enorme da IA. O agro ainda não. Isso significa que quem se posicionar agora sai muito na frente.

Dito isso, o perfil mais impactado será um só: o profissional que não se adaptar à nova realidade.

Aqui gosto de fazer um paralelo com o Excel. Aquele mesmo da planilha. Há vinte anos, o agrônomo que ainda anotava tudo no caderno e se recusou a aprender planilha ficou defasado. Não foi o Excel que tirou o emprego dele, foi o colega que aprendeu Excel. Hoje se repete a mesma cena: o profissional que insistir em ficar só na planilha e não começar a usar IA no cotidiano será amplamente impactado.

A IA não substitui o agrônomo. Mas o agrônomo que usa IA vai substituir o que não usa.

AgriBrasilis – Quais competências em IA serão indispensáveis?

Guilherme Sanches – A parte operacional tende a ser ocupada pela IA. Tarefas repetitivas como “apertar botão”, digitar dado, entrar na internet e copiar e colar um dado para colocar na planilha, tudo isso a IA faz mais rápido e melhor. Quem construiu a carreira em cima dessas tarefas precisa se reinventar.

O que sobra para nós, e que passa a valer muito mais, é raciocínio, resolução de problemas e aplicação do conhecimento. Conhecer profundamente a dor do produtor, entender o problema real do campo e ter repertório técnico para saber se aquela resposta faz sentido agronômico ou não.

Junte isso ao domínio de IA e você tem a competência mais valiosa dos próximos anos: pegar um problema real, saber usar as ferramentas de IA com maestria e entregar uma solução que de fato resolve. Não é ser programador, é ser o profissional que sabe fazer a pergunta certa e criticar a resposta.

E isso não se aprende assistindo vídeo. Se aprende praticando todos os dias, como foi com o Excel.

AgriBrasilis – Quais são os riscos do uso da IA?

Guilherme Sanches – O maior risco é não saber usar. Não é a tecnologia em si, é o despreparo de quem opera. Alguém que toma decisão em cima de uma resposta que não sabe criticar, que expõe dado sigiloso da empresa sem perceber, que confia num número inventado pela ferramenta. O risco maior é o uso ingênuo.

Faço um paralelo com a internet. Quando ela começou, caímos em todo tipo de golpe, tivemos dados expostos, conta de banco invadida, vírus, e-mail falso. Foi um período confuso e inseguro. E o que fizemos? Não deixamos de usar a internet. Aprendemos a usá-la com segurança, criamos regras, senhas fortes, desconfiança saudável.

Com IA é exatamente a mesma coisa. Ela é 100% segura? Não. Nenhuma tecnologia é. Existem riscos reais de vazamento de informação, de resposta incorreta apresentada com muita confiança, de dependência excessiva da ferramenta e de perda de senso crítico. Mas a saída nunca foi se afastar, e sim aprender a usar de maneira segura.

Por isso eu volto sempre ao mesmo ponto: capacitação. É ela que separa quem usa IA com segurança de quem se expõe sem perceber.

 

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