“O solo deve ser compreendido como um organismo vivo e dinâmico…”
Eliana Fontes é pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, coordenadora científica do projeto Regenera Cerrado, bióloga, mestre em ecologia e doutora em entomologia.
Fontes foi editora-chefe da Revista Neotropical Entomology, diretora do Departamento do Patrimônio Genético do MMA, coordenadora geral de Ciências da Terra e Meio Ambiente do CNPq, secretária executiva da comissão Técnica Nacional de Biossegurança no MCTI e coordenadora geral de qualidade de pesquisa no Departamento de P&D da Embrapa.
AgriBrasilis – Como produzir grãos sem degradar o solo?
Eliana Fontes – O solo deve ser compreendido como um organismo vivo e dinâmico. A produção sustentável de grãos depende de uma interação equilibrada entre microrganismos, insetos, outros invertebrados e as raízes das plantas.
Esses organismos promovem processos ecossistêmicos indispensáveis, como a ciclagem de nutrientes e a formação de estoques de carbono, essenciais à vida no solo. Além disso, garantem a aeração, que impacta o crescimento radicular, facilita trocas gasosas e melhora a retenção de água.
Essa dinâmica vital pode ser mantida substituindo práticas agrícolas convencionais por estratégias regenerativas. Destacam-se a consolidação do sistema de plantio direto, a rotação de culturas, o cultivo diversificado e agroflorestal e a substituição gradativa de insumos químicos sintéticos por bioinsumos. O uso de microrganismos fixadores de nitrogênio, solubilizadores de fósforo, promotores de crescimento e micro e macrobiológicos que atuam como inimigos naturais de doenças e insetos-praga assegura a vitalidade sistêmica da lavoura.
AgriBrasilis – Quais os resultados do programa Regenera Cerrado?
Eliana Fontes – Os resultados da pesquisa conjunta entre cientistas e agricultores demonstram que é perfeitamente possível produzir grãos no Cerrado de forma sustentável, econômica e resiliente.
Conduzido em uma coalizão que integrou doze fazendas e trinta e seis pesquisadores, o projeto evidenciou que o manejo regenerativo mantém a saúde do solo e garante a alta produtividade sem gerar degradação.
Falar em agricultura regenerativa hoje significa construir um compromisso de longo prazo, gerando inteligência sobre os sistemas vivos para assegurar a rentabilidade do produtor e a sustentabilidade da agricultura brasileira para as futuras gerações.
AgriBrasilis – Quais os benefícios de manter o carbono no solo das lavouras?
Eliana Fontes – O estoque de carbono orgânico funciona como o coração da capacidade regenerativa dos solos agrícolas. Conforme a literatura técnica do Projeto Regenera Cerrado, os benefícios de sua preservação incluem maior proteção e humidade, por meio de produção de biomassa vegetal de cobertura, que registrou uma média de cento e noventa toneladas por hectare, ampliando a matéria orgânica e a retenção de água.
O carbono possui também correlação direta com o diâmetro médio dos agregados do solo, o que reduz drasticamente os riscos de erosão e melhora o potencial de recarga hídrica subterrânea. E ainda, o acúmulo de carbono eleva a atividade de fungos micorrízicos e os teores de glomalina, uma glicoproteína essencial para estabilizar a estrutura do solo.
AgriBrasilis – É possível reduzir fertilizantes e pesticidas sem perder produtividade?
Eliana Fontes – Os resultados do Regenera Cerrado demonstram que a redução do uso de fertilizantes e pesticidas químicos sintéticos, combinada com a introdução de bioinsumos, preserva a viabilidade econômica e eleva o rendimento.
O grande destaque ocorreu no cultivo do milho safrinha, onde o sistema regenerativo alcançou produtividade média de 151 sacas por hectare, superando as 142 sacas do manejo convencional. No balanço consolidado de dois anos, incluindo soja e milho, o lucro total acumulado do manejo regenerativo superou o sistema convencional.
Paralelamente, a redução dos agroquímicos ativou o controle biológico natural, atingindo índices significativos de mortalidade de lagartas por parasitoides e fungos entomopatogênicos de ocorrência natural nas áreas regenerativas.
AgriBrasilis – Como a agricultura regenerativa muda o controle de pragas?
Eliana Fontes – Ela promove uma mudança profunda na arquitetura das redes tróficas, substituindo a lógica da erradicação química pelo equilíbrio ecológico.
A substituição gradual e planejada de pesticidas e fungicidas sintéticos por bioinseticidas e biofungicidas diminui os surtos de pragas-chave, pois preserva os inimigos naturais. Essa transição reduz o filtro ecológico negativo dos agroquímicos e beneficia diretamente organismos benéficos, por exemplo, inimigos naturais e polinizadores.
O projeto demonstrou que áreas com bioinsumos abrigam comunidades de abelhas silvestres muito mais equilibradas. Como a maioria dessas espécies constroem ninhos no chão, elas se beneficiam do solo protegido e sem revolvimento. A visitação dessas abelhas gerou um incremento de até sete por cento na massa dos grãos de soja nas lavouras próximas à vegetação nativa.
AgriBrasilis – O agricultor sabe medir e preservar os inimigos naturais na lavoura?
Eliana Fontes – A conscientização e o entendimento dos produtores sobre o valor da biodiversidade para a sustentabilidade e o rendimento econômico estão em franca ascensão. Esse avanço foi percebido ao trabalharmos com o grupo de produtores de soja e milho no Projeto Regenera Cerrado.
Contudo, a capacidade prática de monitorar e quantificar essa fauna benéfica ainda precisa ser massificada. Para que esse conhecimento ganhe escala, é indispensável investir no treinamento contínuo de produtores, gerentes, consultores técnicos e funcionários que atuam diretamente no campo.
Além disso, torna-se estratégico inserir disciplinas focadas em agricultura regenerativa e bioinsumos no currículo acadêmico das escolas agrícolas e na formação de profissionais de agronomia.
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