“É preciso atenção à temperatura, incidência solar e condições de armazenagem…”
Christiane Paiva é pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, focada em microbiologia do solo e bioprodutos, formada em agronomia, com mestrado e doutorado pela UFMG.
AgriBrasilis – Quais as limitações do uso dos inoculantes?
Christiane Paiva – A principal limitação é a falta de conhecimento técnico no manejo. Os inoculantes são produtos biológicos, feitos à base de microrganismos vivos, e exigem cuidados distintos dos produtos químicos. É preciso atenção à temperatura, incidência solar e condições de armazenagem. Também é necessário conhecer a forma correta de inoculação na semente, utilizando a dose apropriada.
Outro desafio é a compatibilidade com químicos. Muitas vezes o produtor adquire sementes já tratadas com defensivos e, em seguida, deseja aplicar o inoculante. Nesse caso, a eficiência do biológico pode ser comprometida. O ideal é realizar primeiro o tratamento químico, deixar a semente secar e somente depois aplicar o inoculante.
No campo, recomenda-se utilizar tanques separados para a aplicação de químicos e biológicos ou, quando isso não for possível, fazer a pulverização de forma rápida, evitando alterações de pH e temperatura. Em resumo, o sucesso depende de boas práticas de manejo e do uso de produtos legítimos, registrados e autorizados pelo MAPA.
AgriBrasilis – Como os inoculantes agem para liberar fósforo do solo?
Christiane Paiva – Os microrganismos solubilizadores de fosfato atuam na rizosfera, junto às raízes das plantas. No caso do produto desenvolvido pela Embrapa, duas bactérias agem por meio de diferentes mecanismos que favorecem a absorção do fósforo.
Nos solos tropicais brasileiros, o fósforo é de difícil absorção devido à presença de minerais, argilas e óxidos que retêm o nutriente. Estima-se que quase 80% do fósforo aplicado via fertilizantes acabe ficando preso no solo. Assim, o agricultor investe alto em adubação fosfatada, mas grande parte do elemento se acumula no solo, sem ser aproveitada.
As bactérias produzem ácidos orgânicos e enzimas que quebram as ligações do fósforo com o solo, liberando fósforo preso nos minerais e fósforo orgânico presente na matéria orgânica, resíduos vegetais e palhada (no caso do plantio direto). Dessa forma, o fosfato se torna solúvel e disponível para as plantas.
AgriBrasilis – Qual o custo-benefício do uso de inoculantes para o agricultor?
Christiane Paiva – O custo é muito baixo em relação ao potencial de retorno. Inoculantes para fósforo podem gerar ganhos médios de 5 a 6 sacas de soja por hectare e até 11 a 13 sacas no milho, com investimento que não chega a meia saca/uma saca de grão. Trata-se, portanto, de uma tecnologia de alta rentabilidade, que também permite melhor aproveitamento dos fertilizantes aplicados e, em alguns casos, até redução das doses de adubação.
“…Os microrganismos conseguem aumentar o aproveitamento do nutriente acumulado no solo, mas a eficiência atual é limitada, de no máximo 20%.”
AgriBrasilis – Qual é a eficiência do fósforo aplicado via adubação tradicional?
Christiane Paiva – É bastante baixa. Em solos muito argilosos e intemperizados, comuns no Brasil, a eficiência pode ser de apenas 10%, ou seja, 90% do fósforo aplicado fica indisponível. De modo geral, a média de aproveitamento nos solos brasileiros não ultrapassa 20%.
AgriBrasilis – O inoculante pode substituir completamente a adubação fosfatada?
Christiane Paiva – Definitivamente não. Ao contrário da soja, em que o inoculante substitui o uso de nitrogênio porque esse elemento está disponível no ar, o fósforo precisa ser reposto continuamente. Os microrganismos conseguem aumentar o aproveitamento do nutriente acumulado no solo, mas a eficiência atual é limitada, de no máximo 20%.
No futuro, com melhoramento genético e novas tecnologias, essa eficiência pode ser ampliada, mas a reposição de fósforo continuará sendo necessária, já que os solos brasileiros são pobres nesse elemento.
AgriBrasilis – Por que o uso do inoculante é mais eficaz em áreas de plantio direto?
Christiane Paiva – As áreas sob plantio direto acumulam grandes quantidades de fósforo orgânico na palhada e nos resíduos vegetais. Esse nutriente, que não estaria naturalmente disponível, pode ser liberado pelas enzimas produzidas pelos microrganismos.
Além disso, o ambiente do plantio direto favorece a microbiota: há maior teor de matéria orgânica, que serve de alimento para os microrganismos, maior retenção de umidade e proteção da palhada contra variações bruscas de temperatura. Essas condições proporcionam solos mais ativos biologicamente, criando um ambiente ideal para a ação eficiente dos inoculantes.
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