42% da expansão da soja no Matopiba entre 2019/20 e 2022/23 ocorreu sobre vegetação nativa

Published on: December 12, 2024

“Os sojicultores têm diferentes motivos para adotar práticas de baixo carbono, mas o aumento da produtividade e a maior resiliência…”

Camila Santos é especialista em carbono e coordenadora de projetos do Programa Soja da Fundação Solidaridad, doutora e mestre em ciência do solo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com graduação em agronomia.


AgriBrasilis – É mais caro produzir soja de baixo carbono?

Camila Santos – Não necessariamente. Contudo, é preciso um investimento inicial para implementar essas práticas, além de um período de adaptação, até que os benefícios sejam percebidos. Com o tempo, essas mudanças tendem a aumentar a eficiência do sistema, melhorar a produtividade e, consequentemente, reduzir os custos de produção e aumentar o lucro, viabilizando o custo inicial.

AgriBrasilis – Que mecanismos financeiros existem para implantação de práticas de baixa emissão de carbono no Matopiba?

Camila Santos – Existem algumas linhas de crédito disponíveis para produtores, como aquelas voltadas para o Sistema Plantio Direto (SPD), recuperação de pastagens e melhoria da fertilidade do solo. No entanto, linhas mais atrativas, como as do Plano ABC e outras subsidiadas, frequentemente enfrentam limitações, seja pela escassez de recursos ou pela burocracia nos processos, o que pode dificultar o acesso e, muitas vezes, impedir que todos os produtores e produtoras sejam atendidos. Além disso, é importante ressaltar que a disponibilidade dessas linhas de crédito pode variar significativamente entre as diferentes regiões produtoras. Também há uma lacuna na implementação de mecanismos que recompensem ou bonifiquem de forma significativa os agricultores que adotam boas práticas agrícolas.

AgriBrasilis – O que motiva o sojicultor a adotar essas práticas?

Camila Santos – Os sojicultores têm diferentes motivos para adotar práticas de baixo carbono, mas o aumento da produtividade e a maior resiliência da produção frente às variações no regime de chuvas são os principais.

“A redução das emissões pode ser alcançada por meio de uma combinação de práticas agrícolas sustentáveis, manejo adequado e tecnologias inovadoras…”

AgriBrasilis – Como reduzir a emissão de carbono em áreas de soja na região?

Camila Santos – A redução das emissões pode ser alcançada por meio de uma combinação de práticas agrícolas sustentáveis, manejo adequado e tecnologias inovadoras. Algumas estratégias eficazes incluem a adoção do SPD, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, aplicação eficiente de fertilizantes, implementação de sistemas integrados de produção, como ILP ou ILPF, agricultura de precisão e utilização de energias renováveis e bioinsumos. Essas práticas não apenas contribuem para a redução das emissões de carbono, como também promovem o sequestro de carbono, melhoram a saúde do solo, conservam os recursos naturais e aumentam a produtividade. Além disso, tornam a produção de soja mais resiliente e competitiva no mercado internacional, em que a sustentabilidade é cada vez mais valorizada.

AgriBrasilis – Como o uso e ocupação da terra mudou nesses estados desde os primeiros estudos da Fundação Solidaridad?

Camila Santos – Desde o estudo realizado pela Fundação Solidaridad sobre o potencial de expansão da soja no Matopiba, lançado em 2021, observamos uma mudança significativa na dinâmica de uso e ocupação da terra na região. No período inicial analisado, entre 2013/14 e 2018/19, a maior parte da expansão da soja (80,8%) ocorreu sobre áreas já convertidas para usos antrópicos, enquanto apenas 19,2% avançavam sobre vegetação nativa. Esse dado era alentador, pois indicava o uso predominantemente responsável do solo, com menor pressão sobre as áreas de vegetação natural.

No entanto, os dados mais recentes mostram uma tendência preocupante. Entre 2019/20 e 2022/23, 42% da expansão da soja no Matopiba ocorreu sobre a vegetação nativa, o que corresponde a 920 mil hectares, evidenciando um aumento significativo do desmatamento para a conversão em áreas agrícolas. Além disso, a taxa média anual de expansão no período mais recente atingiu 1,457 milhão de hectares, um crescimento muito superior às médias observadas nos períodos anteriores. Esse cenário reforça o papel do Matopiba como epicentro da expansão agrícola no Cerrado, mas também destaca os impactos ambientais crescentes.

AgriBrasilis – Quais foram as demais conclusões dos Estudos Econômicos da Fundação sobre a sojicultura no Matopiba?

Camila Santos – Os estudos analisaram modelos de expansão da soja em cada estado da região, avaliando diferentes abordagens econômicas para garantir uma expansão sustentável da cultura. A pesquisa concluiu que não existe um mecanismo único capaz de impulsionar a adoção de práticas sustentáveis na sojicultura no Matopiba, nem de direcionar a expansão produtiva de forma eficiente. Assim, recomenda-se a combinação de instrumentos financeiros, como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), crédito de carbono e Cédulas de Produto Rural (CRA), com instrumentos não financeiros, como a assistência técnica e a introdução de Brachiaria, para:

  • Aumentar a produtividade;
  • Reduzir a necessidade de expansão em áreas de vegetação nativa;
  • Cobrir o custo de oportunidade para os produtores que buscam ampliar suas operações.

Além disso, o estudo ressalta a importância de ações como parcerias público-privadas, programas de cooperação e redes de colaboração que promovam o acesso a mercados diferenciados e tecnologias inovadoras. Políticas públicas e regulamentações também devem priorizar o uso de áreas já abertas, garantindo uma expansão mais sustentável e responsável.

AgriBrasilis – Por que o modelo atual de expansão da soja na Bahia e Tocantins não é considerado atrativo?

Camila Santos – O modelo atual apresenta um retorno negativo, principalmente devido ao alto custo de investimento nos primeiros anos de cultivo da soja, aliado aos elevados custos operacionais. Em contrapartida, os demais modelos de expansão analisados — aquisição de áreas com vegetação excedente na Bahia e expansão sobre vegetação nativa excedente na propriedade no Tocantins — demonstraram indicadores econômicos mais favoráveis.

No caso de Tocantins, destaca-se a viabilidade econômica da expansão sobre áreas de vegetação nativa, já que o preço dessas terras é significativamente inferior ao das terras destinadas para pastagens ou agricultura. Esses dados apontam para uma valorização das terras já abertas, o que pode estimular a conversão de áreas de vegetação nativa em novas áreas produtivas. Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas eficazes e maior organização do setor agrícola, medidas essenciais para reduzir a pressão sobre o Cerrado, contribuindo para sua preservação e sustentabilidade no longo prazo.

 

LEIA MAIS:

Manejo correto das pastagens começa “respeitando o ciclo do capim”