Pomares adensados e resistência a acaricidas desafiam o manejo de ácaros na citricultura

Published on: September 3, 2026

“A citricultura brasileira passou por profundas modificações nas últimas décadas…”

Daniel Junior de Andrade é professor associado e pesquisador da Universidade Estadual Paulista – Unesp, no Departamento de Fitossanidade da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, em Jaboticabal, SP.

Andrade é engenheiro agrônomo e doutor em Agronomia (Entomologia Agrícola) pela Unesp. Livre-docente e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, atua em acarologia agrícola e manejo integrado de pragas, com pesquisas sobre ácaros de importância agrícola, resistência a acaricidas e controle da leprose dos citros.

Daniel de Andrade, pesquisador da Unesp


A citricultura brasileira passou por profundas modificações nas últimas décadas, principalmente devido ao avanço do greening e à necessidade de aumento da produtividade. Entre essas transformações, destacam-se o adensamento dos pomares e o uso sistemático de inseticidas. Essa nova conjuntura tem contribuído para alterações significativas no perfil de pragas e doenças que acometem os citros. Por exemplo, algumas pragas, como certas cochonilhas e cigarrinhas, perderam o status de pragas primárias, enquanto outras passaram a ter maior relevância na cultura. Curiosamente, no caso dos ácaros-praga, esse cenário permaneceu relativamente estável, sem mudanças radicais. Os ácaros da leprose (Brevipalpus yothersi) e da ferrugem (Phyllocoptruta oleivora) continuam sendo considerados pragas-chave da cultura, enquanto os tetraniquídeos (Panonychus citri, Eutetranychus banksi e Tetranychus mexicanus) e o ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus) permanecem, de modo geral, como pragas secundárias ou ocasionais.

Contudo, o manejo do ácaro-da-leprose tem sido bastante complicado em algumas regiões do cinturão citrícola, principalmente devido à escassez de acaricidas e às mudanças na condução da citricultura, que, na verdade, têm favorecido a disseminação do ácaro e dificultado seu controle. Pomares mais adensados facilitam a dispersão do ácaro de planta para planta, ao mesmo tempo que dificultam a penetração da calda acaricida no interior da copa das plantas, onde os ácaros acabam permanecendo confinados. Temos ainda casos recentes de populações do ácaro resistentes aos acaricidas. Neste caso, o manejo do ácaro deve estar pautado no monitoramento por meio de amostragens eficientes, na tomada de decisões assertivas e na qualidade da aplicação dos acaricidas.

Devido ao adensamento das plantas, sugere-se que sejam amostradas, no mínimo, 2% das plantas de um talhão ou pomar. A intervenção deve ocorrer assim que o nível de ação for atingido, utilizando-se métodos de controle eficientes. O nível de ação é determinado pela presença de um ou mais ácaros nos frutos e/ou ramos amostrados e, nas condições atuais, não deve ser superior a 3% de frutos e/ou ramos infestados. Uma vez detectado o nível de ação, a decisão de controle deve ser tomada o mais rapidamente possível, predominando, nesse contexto, a utilização de acaricidas químicos. Os acaricidas escolhidos para as aplicações devem apresentar eficiência comprovada e diferentes modos de ação, visando ao manejo da resistência.

O manejo do ácaro-da-ferrugem também tem sido desafiador em algumas regiões, principalmente em áreas destinadas à produção de frutas para o mercado in natura. Essa praga, ao se alimentar dos frutos, causa o escurecimento da casca e rachaduras que podem inviabilizar sua comercialização. É uma das pragas mais comuns e prejudiciais à citricultura em diversas regiões do planeta. Da mesma forma, a escassez de acaricidas, os pomares mais adensados e sombreados, as múltiplas floradas e as mudanças climáticas também têm favorecido as populações desse ácaro-praga. O monitoramento também é peça fundamental para o manejo do ácaro, assim como a qualidade da aplicação e a utilização de produtos com eficiência comprovada.

Os ácaros tetraniquídeos, ou desfolhadores, como também são conhecidos, às vezes podem dar “trabalho”. Aplicações sucessivas de inseticidas podem causar grandes desequilíbrios nas populações de ácaros tetraniquídeos, seja pela eliminação de inimigos naturais, seja pelo efeito de hormese — resposta biológica em que baixas doses de um agente estressor estimulam o organismo, enquanto doses mais altas causam efeito tóxico. Nesse sentido, os ácaros tetraniquídeos apresentam, atualmente, maior importância econômica como pragas do que no passado. O manejo também deve ser baseado no monitoramento, e o controle deve ser iniciado no início da infestação, a fim de evitar o aumento populacional expressivo nas áreas.

Por fim, o ácaro-branco é uma espécie que pode causar prejuízos, principalmente quanto à aparência dos frutos. É mais comum em períodos de alta umidade relativa e temperatura. Geralmente, ocorre em surtos populacionais, com aumento muito rápido da população em condições favoráveis. Isso se deve ao seu ciclo biológico extremamente rápido, que pode ser de apenas 3 dias, do ovo ao adulto. O monitoramento dessa espécie deve ser ainda mais frequente nos períodos favoráveis, e as intervenções devem ser realizadas o mais rapidamente possível após a constatação do nível de ação.

Em resumo, as mudanças recentes na citricultura têm imposto grandes desafios aos citricultores quanto ao manejo integrado de ácaros, sendo necessária a adoção de estratégias cada vez mais criteriosas, baseadas no monitoramento, na tomada de decisão no momento adequado, na qualidade das aplicações e no uso racional dos acaricidas. Vale ressaltar também a necessidade de investimentos em pesquisa, a fim de desenvolver novas ferramentas de manejo, avaliar alternativas de controle e gerar informações que permitam acompanhar as mudanças na dinâmica populacional e na importância econômica dessas pragas.

 

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