Geopolítica, biocombustíveis e clima redesenham o mercado global de grãos

Published on: September 2, 2026

“Mesmo com estoques confortáveis, geopolítica, energia e clima mantêm elevada a volatilidade dos grãos…”

Sol Arcidiacono é chefe da mesa de vendas de grãos para a América Latina da HedgePoint Global Markets e atua há mais de 20 anos nos mercados de grãos, commodities e gestão de riscos. É contadora pública pela Universidad Nacional de Rosario – UNR, Argentina, e mestre em Direção Financeira pela Universidad Politécnica de Cataluña/EAE, em Barcelona, Espanha. Anteriormente, atuou na ED&F Man Capital Markets, Intagro, Innovagro e Nidera.


Apesar de a safra 2026/27 ter começado com estoques iniciais confortáveis nas principais regiões produtoras e para diferentes commodities agrícolas, o mercado de grãos atravessa um ano de elevada volatilidade. O principal fator tem sido a geopolítica, com efeitos sobre variáveis importantes para a atividade agropecuária, como logística, fretes e preços dos fertilizantes.

Esse cenário também afeta fatores macroeconômicos relevantes para os mercados agrícolas, como câmbio, política monetária nas principais economias, atuação dos fundos de investimento e custos de financiamento da produção e da indústria.

O conflito no Oriente Médio alterou significativamente a percepção de risco no mercado. No auge das tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, os preços do petróleo chegaram a dobrar em relação aos níveis observados no início do ano, acompanhados por forte aumento da volatilidade. As restrições à navegação pelo Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% do fluxo global de petróleo e derivados, ampliaram a incerteza.

A intervenção direta dos Estados Unidos mudou a dimensão do conflito. No último quadrimestre do ano, a guerra passou a ser incorporada de forma mais estrutural às expectativas do mercado, sustentando preços mais elevados para as commodities e mantendo a volatilidade em níveis altos.

Esse ambiente também teve reflexos sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia. Os ataques a rotas marítimas e instalações portuárias voltaram a ganhar relevância justamente durante a colheita do Hemisfério Norte, período em que se esperava maior oferta de trigo nos portos do Mar Negro.

Esse fluxo não se concretizou na intensidade projetada. Em agosto, os embarques ficaram em cerca de 25% do volume esperado. Os preços domésticos recuaram, enquanto os problemas logísticos aumentaram e os compradores passaram a buscar origens alternativas. O movimento dá suporte aos preços do trigo europeu e aumenta a importância dos estoques disponíveis no Hemisfério Sul, especialmente na Argentina e na Austrália.

Petróleo e biocombustíveis mudam o balanço agrícola

Com o petróleo em um novo patamar, próximo de US$ 80–85 por barril, ante aproximadamente US$ 55–60 no início do ano, ganharam força as políticas de expansão dos biocombustíveis.

Entre os principais movimentos estão o aumento dos mandatos de mistura nos Estados Unidos, o avanço do B50 na Indonésia e a elevação das misturas de etanol e biodiesel no Brasil.

O efeito sobre os óleos vegetais foi imediato. Os preços subiram e as margens de esmagamento foram alteradas nas principais regiões produtoras, especialmente nos Estados Unidos. O cenário aumenta o incentivo ao esmagamento e direciona uma parcela maior da demanda por soja ao mercado doméstico norte-americano.

Com menor saldo exportável nos Estados Unidos, o Brasil reforça sua posição como principal fornecedor de soja em grão para a China, respondendo atualmente por aproximadamente 75% desse mercado.

Ao mesmo tempo, a indústria argentina de esmagamento de oleaginosas ganha espaço, mesmo sem um mercado doméstico de biocombustíveis com a mesma dimensão observada em outros países.

A menor disponibilidade de óleos concorrentes, especialmente o óleo de palma, também contribui para essa reorganização. Indonésia e Malásia destinam volumes crescentes à produção de biocombustíveis, reduzindo a disponibilidade para exportação.

Nesse contexto, a Índia, maior importadora mundial de óleos vegetais, ampliou significativamente a participação do óleo de soja em suas compras. O movimento favorece principalmente a Argentina, maior exportadora mundial do produto, mas também abre espaço para o Brasil.

Novos papéis no comércio global

Os papéis dos principais exportadores estão sendo redefinidos. O Brasil consolida sua posição como principal fornecedor de soja para a China e para o mercado mundial, enquanto a valorização dos óleos vegetais incentiva a expansão do esmagamento nos países produtores.

Do lado da demanda, a Índia ganha ainda mais relevância, enquanto o balanço global de óleos vegetais fica mais ajustado diante do aumento dos mandatos de biocombustíveis nos Estados Unidos, na Indonésia e na Malásia.

Nesses países, essas políticas têm forte componente econômico: apoiar a produção doméstica e reduzir a dependência de combustíveis derivados do petróleo. A lógica difere daquela que impulsionou parte das políticas europeias de biocombustíveis, mais associadas inicialmente à agenda ambiental.

Incerteza deve continuar

Não há sinais de que o último quadrimestre do ano será mais tranquilo. Aos conflitos geopolíticos somam-se fatores políticos relevantes nas duas maiores economias das Américas.

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos funcionarão, em parte, como uma avaliação da política do governo Trump. No Brasil, as eleições presidenciais também adicionam incerteza ao mercado.

Ao mesmo tempo, os bancos centrais precisarão equilibrar o estímulo à atividade econômica com o controle da inflação, em um ambiente de energia mais cara e maior incerteza geopolítica.

O risco climático também volta ao centro das atenções. Com a perspectiva de um El Niño de forte intensidade, mapas e previsões meteorológicas ganham importância a partir de setembro, especialmente para o Brasil.

Os atuais níveis de preços também podem estimular a expansão da área cultivada com grãos nas principais regiões produtoras em 2027. Esse movimento já começa a ser incorporado às expectativas e às cotações dos mercados agrícolas.

A safra 2026/27, portanto, mostra que estoques confortáveis não são suficientes para garantir estabilidade. Geopolítica, energia, biocombustíveis, logística, política monetária e clima ganharam peso na formação dos preços e devem continuar influenciando a volatilidade do mercado global de grãos.

 

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