BNDES mira R$ 20 bilhões para impulsionar economia florestal

Published on: August 17, 2026

“O Brasil já reúne condições únicas para isso. Temos a maior biodiversidade do planeta, disponibilidade de áreas degradadas, conhecimento científico…”

Tereza Campello é diretora socioambiental do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, economista pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde – NUPENS/USP e professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas em Saúde da Escola Fiocruz de Governo.

Campello foi ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome entre 2011 e maio de 2016, período em que coordenou o Plano Brasil Sem Miséria. Também coordenou o Programa Bolsa Família, a Política Nacional de Assistência Social, a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e o Programa de Cisternas. É doutora por notório saber em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz e realizou pós-doutorado em Segurança Alimentar na Universidade de Nottingham, no Reino Unido.


AgriBrasilis – A restauração de florestas nativas pode ser rentável no Brasil?

Tereza Campello – Pode sim, como já é. Estamos trabalhando justamente para criar as condições para que essa atividade ganhe escala econômica no Brasil. A restauração com espécies nativas é um setor em consolidação, intensivo em capital e com ciclos longos de maturação. Por isso, sua rentabilidade depende da combinação de diferentes fontes de receita e de instrumentos financeiros adequados.

O carbono é uma dessas fontes, mas não é a única. Há também sistemas agroflorestais, produção sustentável de madeira com espécies nativas, manejo florestal, ecoturismo por meio das concessões de parques, produtos da bioeconomia e outros serviços ambientais.

O ProFloresta+ mostra uma dessas possibilidades. A primeira fase associou contratos de 25 anos para compra de créditos de carbono de alta integridade à possibilidade de financiamento do BNDES. Foram selecionados projetos para fornecer 5 milhões de créditos de carbono, criando previsibilidade de receita para investimentos de longo prazo. Ao mesmo tempo, instrumentos como o Fundo Clima oferecem crédito com prazos compatíveis com o ciclo da floresta.

O Brasil tem vantagens importantes: áreas degradadas disponíveis, conhecimento técnico, condições naturais favoráveis e enorme biodiversidade. O desafio é transformar essas vantagens em um setor econômico robusto.

AgriBrasilis – O que impede a restauração florestal de ganhar escala no país?

Tereza Campello – A restauração precisa de uma cadeia inteira funcionando de forma coordenada. É uma atividade intensiva em capital, com retorno de longo prazo, e por isso exige financiamento adequado. Também precisamos fortalecer a produção de sementes e mudas, viveiros, mão de obra qualificada, assistência técnica, pesquisa e tecnologia.

Outro desafio é dar previsibilidade às receitas, seja por meio de contratos de longo prazo de carbono, sistemas agroflorestais, madeira sustentável ou outros produtos e serviços ambientais, além de avançar em produtividade, resiliência, mensuração, certificação e integridade dos ativos ambientais.

O BNDES Florestas, estratégia do Banco para o setor, busca atacar esses gargalos de maneira integrada. Não basta financiar o plantio; é necessário estruturar o mercado. Por isso, combinamos crédito, recursos não reembolsáveis, investimentos e participações, inovação, concessões florestais e mecanismos como o ProFloresta+.

Já mobilizamos R$ 14,1 bilhões para essa economia florestal, sendo R$ 8,2 bilhões em financiamento e R$ 5,9 bilhões em participações e investimentos.

AgriBrasilis – Como transformar o Arco do Desmatamento em Arco da Restauração na prática?

Tereza Campello – Essa transformação já é uma realidade. Na prática, significa substituir uma dinâmica econômica baseada na degradação por uma economia em que manter e recuperar a floresta gere trabalho, renda e produção.

Isso envolve restauração ecológica e produtiva, sistemas agroflorestais, redes de sementes, viveiros, manejo florestal sustentável, concessões, crédito e participação das comunidades locais.

O Restaura Amazônia é uma das ferramentas desse processo. Com recursos do Fundo Amazônia, apoia projetos de restauração em áreas degradadas da Amazônia Legal e leva recursos não reembolsáveis a unidades de conservação, assentamentos, terras indígenas e outros territórios estratégicos. Ao mesmo tempo, o Fundo Clima financia projetos privados de restauração e sistemas agroflorestais.

É essa combinação que faz da restauração uma alternativa econômica concreta à degradação.

AgriBrasilis – Como Floresta Viva, Restaura Amazônia e ProFloresta+ se complementam?

Tereza Campello – Eles atuam em partes diferentes de uma mesma estratégia.

O Floresta Viva utiliza recursos não reembolsáveis do BNDES e de parceiros para apoiar restauração ecológica, sistemas agroflorestais e conservação, mobilizando empresas e outras instituições e levando recursos a projetos que muitas vezes não teriam acesso ao crédito tradicional.

O Restaura Amazônia utiliza recursos do Fundo Amazônia e concentra sua atuação na recuperação de áreas degradadas da Amazônia Legal, especialmente em territórios estratégicos do Arco da Restauração, como unidades de conservação, assentamentos e terras indígenas.

Já o ProFloresta+ atua pelo mercado. Ele conecta empresas interessadas em comprar créditos de carbono de alta integridade a desenvolvedores de projetos de restauração e permite que os projetos vencedores busquem financiamento de longo prazo no BNDES.

São instrumentos complementares: recursos não reembolsáveis, financiamento e mercado trabalhando juntos dentro da estratégia BNDES Florestas.

AgriBrasilis – Há demanda empresarial suficiente para mobilizar até R$ 6 bilhões em compras de créditos pelo ProFloresta+?

Tereza Campello – Estamos realizando conversas com empresas brasileiras para medir as intenções de compra e dimensionar o apetite por créditos de carbono de alta integridade. Já temos, no entanto, uma base importante e resultados concretos da primeira fase do ProFloresta+.

No ProFloresta+ 1, tivemos a Petrobras como compradora e foram selecionadas três empresas para fornecer 5 milhões de créditos de carbono gerados por restauração ecológica na Amazônia. A iniciativa deverá mobilizar cerca de R$ 450 milhões apenas em investimentos em plantio, viabilizar mais de 25 milhões de árvores nativas e gerar 6,3 mil empregos verdes.

Também construímos um contrato de compra de longo prazo, com salvaguardas socioambientais, que pode se tornar referência para o setor e dar mais segurança a compradores e investidores.

Agora, no ProFloresta+ 2, estamos ampliando o modelo para empresas de diferentes setores econômicos. A expectativa é alcançar até 60 mil hectares restaurados, capturar aproximadamente 19 milhões de toneladas de CO₂ e chegar a até R$ 6 bilhões em compra de créditos.

AgriBrasilis – Como garantir que esses créditos resultem na recuperação permanente de florestas nativas?

Tereza Campello – Esse é um ponto central do ProFloresta+: não estamos falando simplesmente da geração de créditos de carbono, mas de créditos originados de projetos de restauração ecológica com espécies nativas e submetidos a critérios rigorosos de integridade.

Na primeira fase, foram estruturados contratos de 25 anos, justamente porque a restauração é um processo de longo prazo. Os projetos precisam atender a critérios de qualidade ambiental, diversidade de espécies, monitoramento, certificação e salvaguardas socioambientais.

Essa lógica é mantida no ProFloresta+ 2. O contrato de longo prazo também dá previsibilidade de receita ao desenvolvedor e melhores condições para financiar e manter o projeto ao longo do tempo.

A integridade do crédito depende, portanto, da combinação entre qualidade ambiental da restauração, governança, monitoramento e sustentabilidade financeira do projeto.

AgriBrasilis – O que precisa mudar para o Brasil se tornar referência mundial em restauração florestal?

Tereza Campello – O Brasil já reúne condições únicas para isso. Temos a maior biodiversidade do planeta, disponibilidade de áreas degradadas, conhecimento científico e empresas e organizações com experiência em restauração.

O desafio é transformar essas vantagens em escala. Precisamos ampliar o financiamento de longo prazo, atrair capital privado, desenvolver tecnologia para reduzir custos e elevar a produtividade, fortalecer a cadeia de sementes, mudas e viveiros, formar trabalhadores e aprimorar metodologias de monitoramento e certificação.

Também precisamos trabalhar com diferentes modelos econômicos. O carbono é importante, mas a restauração pode estar associada a sistemas agroflorestais, madeira sustentável, manejo, concessões e produtos da bioeconomia.

A estratégia do BNDES para o setor, que chamamos BNDES Florestas, reúne crédito, recursos não reembolsáveis, mercado de capitais, inovação, concessões e mecanismos como o ProFloresta+. São cerca de R$ 20 bilhões mobilizados, contando com o ProFloresta+2. Os R$ 14,1 bilhões que já mobilizamos na economia florestal representam a recuperação de 205 mil hectares, ao plantio de 342 milhões de árvores e à geração de 86 mil empregos verdes.

 

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