“Ao mesmo tempo, o desempenho no campo e o avanço do setor não dependem apenas da origem do equipamento…”
Marcus Lawder, diretor comercial da DronePro, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal do Paraná, com MBA em gestão de empresas pela FGV.
Fundada em 2016, a DronePro foi uma das primeiras parceiras oficiais da DJI Agriculture no país. Com atuação voltada à região Norte, a empresa conta com centro de distribuição e suporte técnico em Marabá, PA, e uma rede de 63 revendas na região.
AgriBrasilis – O Brasil tem tecnologia para fabricar drones agrícolas?
Marcus Lawder – O Brasil possui capacidade técnica para desenvolver drones agrícolas e já conta com empresas atuando nesse segmento. No entanto, quando se trata de pulverização em larga escala, o mercado ainda é majoritariamente abastecido por tecnologias importadas, que são resultado de anos de investimento em pesquisa, escala industrial e integração de sistemas, com avanços importantes em automação de voo, capacidade de carga, precisão de aplicação e eficiência operacional. Esse nível de maturidade tecnológica ainda está em desenvolvimento no Brasil, e a indústria nacional avança gradualmente no segmento.
Ao mesmo tempo, o desempenho no campo e o avanço do setor não dependem apenas da origem do equipamento, mas também da estrutura que sustenta sua operação, incluindo assistência técnica, disponibilidade de peças, capacitação de operadores, suporte em campo e adaptação às particularidades da agricultura brasileira.
AgriBrasilis – O que explica o salto de 3 mil para 35 mil drones agrícolas entre 2021 e 2025 no país?
Marcus Lawder – Esse crescimento é resultado da combinação entre avanço tecnológico, ganhos operacionais no campo e evolução regulatória.
Os drones garantem maior segurança para os aplicadores, precisão de aplicação, atuação em áreas de difícil acesso, redução no consumo de água e insumos e ampliação da janela operacional, com resultados equivalentes ou até superiores aos métodos tradicionais de pulverização.
O levantamento “Uso de drones agrícolas no Brasil: da pesquisa à prática”, da Embrapa, mostra, por exemplo, que os drones podem apresentar maior penetração das gotas no dossel e maior deposição no terço inferior das plantas, região de difícil acesso para pulverizadores convencionais, com índices até 1,9 vez superiores.
A pulverização também mantém a eficiência mesmo com volumes menores de calda, ampliando a autonomia operacional e a capacidade de cobertura das áreas, além de eliminar perdas por amassamento de plantas, comuns em operações mecanizadas, que podem chegar a até 7% na soja e 4,8% no arroz.
Os equipamentos também têm evoluído rapidamente em capacidade de carga, autonomia operacional e sistemas automatizados.
Por fim, a regulamentação diminuiu barreiras e criou regras mais claras para o setor, impulsionando sua expansão.
AgriBrasilis – Como as mudanças regulatórias têm impactado esse mercado?
Marcus Lawder – A partir de 2021, por meio da Portaria nº 298 do Ministério da Agricultura, o Brasil passou a contar com regras específicas para o uso de drones agrícolas, trazendo mais segurança jurídica e critérios claros para operação, capacitação e registro de operadores.
Novas medidas promovidas pelo MAPA e pela Agência Nacional de Aviação Civil também ajudaram a simplificar exigências, reduzir barreiras regulatórias e profissionalizar o mercado. Neste ano, a entrada em vigor do Regulamento Brasileiro da Aviação Civil Especial nº 100 modernizou a regulamentação brasileira ao adotar critérios baseados no risco operacional e alinhados a padrões internacionais.
Apesar dos avanços, o ambiente regulatório ainda envolve diferentes órgãos, como ANAC, DECEA, ANATEL e MAPA, o que exige atenção dos operadores.
Mesmo assim, o saldo é positivo e o Brasil possui, hoje, um dos ambientes regulatórios mais estruturados.
AgriBrasilis – Em que situações é mais recomendado o uso de drones ante o uso de aeronaves tripuladas?
Marcus Lawder – As duas tecnologias possuem características operacionais distintas, e a escolha depende das condições da área e do objetivo da aplicação.
Os drones são mais recomendados em áreas com relevo irregular ou de difícil acesso, além de situações que exigem respostas rápidas e em que há restrições logísticas ou climáticas para a operação de aeronaves tripuladas.
Outro diferencial importante é a operação sem contato com o solo, evitando compactação e amassamento da cultura, além da maior segurança operacional, com menos riscos associados a voos de baixa altitude e a exposição do operador durante a aplicação.
Já as aeronaves tripuladas continuam sendo mais recomendadas em grandes áreas planas e contínuas, onde o volume operacional é o principal fator.
Na prática, as duas tecnologias são complementares dentro da operação agrícola.
AgriBrasilis – Quem mais impulsiona a demanda por drones?
Marcus Lawder – Inicialmente, os prestadores de serviço tiveram papel importante na disseminação dos drones agrícolas no Brasil, permitindo que muitos produtores testassem a tecnologia antes de investir na aquisição dos equipamentos.
Com a maturação do mercado, esse perfil de demanda se diversificou, e produtores rurais também passaram a investir diretamente nos drones.
Esse movimento foi acompanhado pelo crescimento das revendas especializadas e pela profissionalização do setor. No caso da DronePro, por exemplo, a maior parte da rede parceira já é formada por revendas especializadas exclusivamente em drones.
De forma geral, o setor vem evoluindo rapidamente e exigindo não apenas a oferta de equipamentos, mas também suporte técnico e capacitação operacional para garantir o uso eficiente da tecnologia.
AgriBrasilis – Quais são os erros relacionados ao mau uso desses equipamentos? Como evitar deriva, falhas de cobertura e aplicação mal calibrada?
Marcus Lawder – Entre os problemas mais comuns estão aplicações realizadas em condições climáticas inadequadas, altura e velocidade de voo incorretas, escolha inadequada do tamanho de gotas e falhas de calibração do equipamento.
A deriva, por exemplo, costuma ocorrer quando há vento excessivo, temperaturas elevadas ou baixa umidade do ar. Já as falhas de cobertura geralmente estão associadas a ajustes incorretos de faixa de aplicação, vazão ou sobreposição entre passadas.
Por isso, o uso eficiente da tecnologia exige monitoramento das condições climáticas, planejamento adequado da operação, segurança operacional e regulagem correta do equipamento conforme a cultura e o alvo fitossanitário.
Mesmo com sistemas automatizados e recursos avançados de navegação, a eficiência depende da capacitação do operador e do uso adequado dos parâmetros de aplicação.
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