“O Brasil não tem, nem nunca teve, estratégia para lidar com a China”, segundo Milton Pomar

Published on: April 28, 2026

“Cada entidade empresarial, cada governo estadual, cada grande empresa tem a sua estratégia específica…”

Vladimir Milton Pomar é CEO da Per Capta, empresa com atuação na cooperação de negócios e intercâmbios entre Brasil e China.

Milton Pomar é bacharel em geografia pela UESC, com mestrado em estado, governo e políticas públicas pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.


AgriBrasilis – Quem se beneficia com a disputa comercial EUA X China?

Milton Pomar – Disputas comerciais desse tipo costumam prejudicar os dois lados, e beneficiar países que vendem para ambos, com vantagens em produtos específicos. Um exemplo é o agro dos EUA, que sempre sai perdendo, porque depende de subsídios para exportar competindo com os produtos do Brasil, por exemplo.

Commodities agrícolas e minerais têm os preços definidos pelos compradores, ou seja, são uma grande armadilha para quem produz (ou extrai, no caso dos minérios). Se os EUA não venderem seus excessos de produção de milho e soja para a China, venderão para qual país? Essa é a questão. Se um grande fornecedor sai do mercado por retaliação de um grande comprador, os demais fornecedores pouco ganharão, porque esse comprador sempre jogará com a possibilidade de “reabilitar” o que está “de castigo” – fato ocorrido em 2020, quando a China comprou dos EUA o triplo do que havia comprado em 2019, por exemplo.

AgriBrasilis – Quais as consequências dessa disputa para o Brasil?

Milton Pomar – O agro do Brasil convive com a maior taxa de juros real do mundo; histórica dependência de fertilizantes importados; transporte por caminhões, ao invés de trens/ferrovias; deficiência histórica de capacidade de armazenagem; e portos cujo tempo e custo de operação precisa melhorar muito. Se as principais lideranças empresariais do setor tivessem outra visão, teríamos liquidado boa parte desses fatores limitantes e seríamos competitivos também “da porteira para fora”. Uma boa consequência dessa disputa será a disposição da China em investir na construção da ferrovia ligando a região do Matopiba e o Mato Grosso ao porto de Chancay, no Peru.

AgriBrasilis – A dependência do agro brasileiro com relação à China é sustentável?

Milton Pomar – Não. O valor de troca dos produtos industriais, em relação aos produtos agrícolas, também é insustentável. Um exemplo simples é o dos fertilizantes importados. Porém, não podemos esquecer o caso de todas as máquinas e equipamentos de alta tecnologia, por exemplo.

Nenhuma dependência é sustentável, muito menos de um comprador que absorve metade ou mais das exportações de soja. Quando a China diminuir a compra, quebrará o agro brasileiro, porque a safra tem prazos – plantio, colheita, venda e pagamento de empréstimos. Um bom exemplo é o da carne suína: vendemos bastante durante a crise sanitária na suinocultura da China, mas passado o sufoco, acabou a demanda.

AgriBrasilis – Qual o poder de barganha do Brasil?

Milton Pomar – Nenhum. O Brasil não tem, nem nunca teve, estratégia para lidar com a China. Cada entidade empresarial, cada governo estadual, cada grande empresa tem a sua estratégia específica, e nesse emaranhado de estratégias a China nada de braçada, porque tem uma estratégia para lidar com o Brasil, e as suas empresas e governos seguem à risca as diretrizes do governo central.

Hoje, é tão grande o grau de dependência em relação à China, dos setores mineral e do agro, que será necessário “reinventar” a relação para poder adquirir algum poder de barganha.

AgriBrasilis – As exigências sanitárias da China são barreiras comerciais?

Milton Pomar – Exigências sanitárias, em qualquer país, são também barreiras comerciais. Há muitas fraudes e contaminação em produtos agrícolas a granel e em contêineres, transportados em navios, durante 20-40 dias. Se o país não endurecer na fiscalização do que recebe, terá grandes problemas sanitários. A China é rigorosa, para manter a segurança alimentar da sua população. Ela tem uma população gigantesca, compra muito, tem que garantir que o que recebe tenha qualidade.

AgriBrasilis – Quais os investimentos chineses no agro brasileiro?

Milton Pomar – Um dos grandes investimentos é o da Cofco, em Rondonópolis-MT, na ampliação da sua esmagadora de soja, de 4,5 mil toneladas/dia para 10 mil toneladas/dia, para produzir farelos, óleo e biocombustível. O grupo Citic está produzindo sementes em Paracatu-MG. E outras empresas têm investido na logística, para reduzir custos de transportes e agilizar as exportações, porque a lógica é comprar direto dos produtores, para baixar custos. Quanto mais dominarem todas as etapas, mais conseguirão economizar.

Precisamos atrair investimentos em agroindústrias e criações: empresas chinesas podem investir muito mais, em indústrias químicas, por exemplo, para agregar valor na região da produção, transformando soja e mandioca em inúmeros produtos – faltam projetos consistentes e empresários brasileiros dispostos a investir também. Um outro exemplo é o da criação de cabritos e ovelhas, cujas carnes têm grande mercado na Ásia – no Brasil a produção não atende o mercado interno.

 

LEIA MAIS:

Crise climática causa perdas bilionárias para agro do Uruguai