“O produtor vai colher, vai entregar a produção, mas não vai cobrir com as despesas…”
Walmir Rampinelli é presidente do Sindicato das Indústrias de Arroz de Santa Catarina, sócio-diretor da Rampinelli Alimentos, graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de SC.

Walmir Rampinelli, presidente SindArroz-SC
AgriBrasilis – Por que a cadeia produtiva do arroz está em crise?
Walmir Rampinelli – Em 2025 tivemos uma superprodução de arroz no Brasil. Como tivemos picos de alta, a cultura ficou em foco e todos optaram, inclusive o Centro-Oeste, por plantar arroz, mesmo com alto custo de produção, porque até então compensava. O clima favoreceu a produtividade e a produção.
A nível mundial também houve uma superprodução: a Índia, que abriu as fronteiras, e os EUA, China, Uruguai, Paraguai colheram muito. Consequentemente, houve queda nos preços, mas o elevado custo de produção no Brasil torna o atual patamar de cotações economicamente inviável.
AgriBrasilis – Quais as perspectivas para 2026?
Walmir Rampinelli – A produção de 2026 também será grande, mas não tanto quanto a de 2025, pois teremos uma pequena retração. O nosso custo de produção continua alto: R$ 75 a saca para SC, sendo que o preço do arroz está R$ 50, ou seja, temos um déficit de R$ 25 a saca.
Eu ainda acredito que no primeiro semestre nós não teremos perspectiva nenhuma, pois o arroz está em queda. Veremos uma pressão dos preços a partir, principalmente, de março, quando intensificam a colheita no RS.
A meu ver, quando iniciarem ou terminarem os plantios de 2026, que é a safra 2026-2027, haverá uma redução muito grande, porque o agricultor não vai estar capitalizado para fazer esse plantio. As instituições financeiras não estão dispostas a fomentar esse plantio, até porque vai haver muita inadimplência dos agricultores por conta desse déficit de agora, quando os produtores gastaram R$ 75 e estão colhendo a R$ 50.
A partir daí acredito que o arroz começa a se movimentar um pouco, porque a expectativa da safra 2026-2027 é de que seja uma safra frustrante, menor. Então, acredito que possa haver um movimento no preço do arroz, alcançando um preço que pelo menos cubra os custos de produção.
AgriBrasilis – Qual o risco de inadimplência por parte dos rizicultores?
Walmir Rampinelli – Existe um alto risco de inadimplência. Tanto é que em nossas reuniões, as reivindicações dos agricultores são para que os agentes financiadores reparcelem as dívidas. Então haverá, sim, uma inadimplência junto aos órgãos financiadores. Inclusive, as próprias indústrias que ajudam os agricultores, que têm essa parceria de fomento na produção do arroz, estão preocupadas. O produtor vai colher, vai entregar a produção, mas não vai cobrir com as despesas.
AgriBrasilis – Que medidas o setor e o governo estão adotando para enfrentar o cenário atual?
Walmir Rampinelli – Estamos nos reunindo com as entidades representativas, como a Câmara Setorial do Arroz em SC, os Sindicatos e os próprios executores. O governo estadual já nos sinalizou com algumas medidas a serem tomadas, como o financiamento das sementes para o rizicultor, além da a introdução do arroz catarinense como obrigatório na merenda escolar e na alimentação das penitenciárias.
Temos pré-agendado para início de março uma audiência com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e todos os órgãos das entidades representativas do Brasil, principalmente de SC e do RS, para buscarmos formas de incentivar a exportação, para que nos abram canais de exportação e consigamos planejar a longo prazo, para que não haja uma fuga para outras culturas.
Às vezes sai todo mundo correndo para plantar arroz quando ele está em alta e abandonam o milho e a soja, ou o contrário. Como ocorreu agora, todo mundo foi plantar arroz, porque estava muito atrativo, aí os preços caíram. Dessa forma, existe uma solicitação para que seja realizado um planejamento junto à Conab, junto aos órgãos representativos, às federações, aos sindicatos, para que a gente consiga manter a produção equilibrada com o consumo.
AgriBrasilis – O excesso de estoque está pressionando o setor a exportar?
Walmir Rampinelli – Teremos uma redução da produção em torno de 10% a 15%, mas temos um estoque de passagem que representa muito mais que isso, então não vai faltar arroz. Teremos arroz sobrando ainda este ano.
Com a baixa do dólar fica mais difícil de exportar, mas está havendo uma procura. Estamos inclusive sendo pressionados para que haja mais exportação. Além disso, alguns países estão dificultando a importação do produto brasileiro.
Estamos tentando também acessar o mercado na África, que é um grande consumidor de arroz e o Brasil tem um relacionamento muito estreito com o continente, tanto é que a Embrapa está lá fazendo pesquisas.
Temos uma outra preocupação que é o Paraguai. Quando o acordo do Mercosul foi assinado, o Paraguai não produzia arroz, mas hoje ele produz tanto arroz quanto SC e com certeza nos próximos cinco anos ultrapassará muito o nosso estado. Então, acho que nós temos que trabalhar de forma globalizada.
AgriBrasilis – Quais devem ser os efeitos no mercado consumidor nos curto e médio prazos?
Walmir Rampinelli – Hoje, o consumidor está tendo um produto na gôndola que está saindo abaixo do custo. E a preocupação é que isso venha a romper a cadeia, pois precisamos manter equilibrada a produção com o consumo.
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