Sorgo cresce 32,9% em área e mira mercado chinês

Published on: October 6, 2026

“Não se trata apenas de substituir o milho, mas de diversificar o sistema e ocupar, com mais segurança, ambientes em que o milho passa a apresentar risco econômico elevado…”

Vinícius Pereira Guimarães é chefe-geral da Embrapa Milho e Sorgo,  zootecnista pela Universidade Federal de Viçosa, graduado em Administração/Comércio Exterior pela Faculdade de Viçosa. Guimarães é mestre e doutor em Produção Animal pela UFV, com período sanduíche na Texas A&M University.


AgriBrasilis – O que tem impulsionado o crescimento de 32,9% da área de sorgo no Brasil?

Vinícius Pereira Guimarães – Esse crescimento resulta da combinação de fatores agronômicos e de mercado. O sorgo vem se consolidando como alternativa para a segunda safra, sobretudo quando o atraso da soja encurta a janela mais segura para o milho. A cultura apresenta maior tolerância ao déficit hídrico, ciclo ajustado a ambientes de maior risco e, em geral, menor custo de implantação. Também contribuem a ampliação da oferta de sementes, o maior conhecimento técnico, a demanda da alimentação animal, o interesse da indústria de etanol e a abertura do mercado chinês. Portanto, não se trata apenas de substituir o milho, mas de diversificar o sistema e ocupar, com mais segurança, ambientes em que o milho passa a apresentar risco econômico elevado.

AgriBrasilis – A demanda da alimentação animal é suficiente para sustentar esse crescimento?

Vinícius Pereira Guimarães – A alimentação animal é a principal base do mercado brasileiro de sorgo e pode absorver volumes expressivos, porque o grão substitui parcialmente o milho nas formulações, desde que se considerem composição nutricional, preço e regularidade de fornecimento. Entretanto, para sustentar uma produção que já alcança 7,35 milhões de toneladas e continuar crescendo, é importante diversificar a demanda. Precisamos ampliar o uso em rações, mas também desenvolver mercados para etanol, alimentação humana e exportação. O desafio é transformar o crescimento da área em uma cadeia organizada, com contratos, armazenagem, padronização de qualidade e maior liquidez. Produzir mais sem estruturar a comercialização pode pressionar preços e desestimular o produtor.

AgriBrasilis – Por que, mesmo com o crescimento da área, a produtividade deve cair 9,4%?

Vinícius Pereira Guimarães – O levantamento mais recente da Conab indica redução de 9,4%, de 3.739 para 3.388 quilos por hectare. Isso ocorre, em grande parte, porque a expansão aconteceu justamente em áreas mais tardias e de maior risco climático. Em Goiás, Minas Gerais, Piauí, Maranhão e Tocantins, parte das lavouras enfrentou deficiência hídrica, inclusive durante as fases reprodutivas. Houve também ocorrências localizadas de doenças e intempéries. Existe ainda um efeito de composição: ao incorporar rapidamente áreas mais marginais ou plantadas fora da melhor janela, a média nacional diminui. Mesmo assim, a produção cresce 20,4%. Isso mostra a resiliência da cultura, mas também reforça que tolerância à seca não significa ausência de resposta ao manejo ou ao clima.

AgriBrasilis – Quais pesquisas da Embrapa estão apoiando essa expansão?

Vinícius Pereira Guimarães – A Embrapa atua em várias frentes. No melhoramento genético, desenvolve e avalia híbridos adaptados à segunda safra, com estabilidade produtiva, tolerância ao déficit hídrico e diferentes finalidades, como os sorgos graníferos, forrageiros, sacaríneos e de biomassa. Também trabalhamos com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), definição de janelas de plantio, fertilidade do solo, população de plantas e manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas. Na agregação de valor, desenvolvemos pesquisas para alimentação animal e humana, silagem, etanol e bioenergia. Uma importante ação foi o lançamento do Programa Sorgo Baixo Carbono, que buscará parceiros da iniciativa privada para estabelecer indicadores mensuráveis para o reconhecimento de sistemas eficientes e sustentáveis. A pesquisa precisa acompanhar toda a cadeia: da genética ao mercado.

AgriBrasilis – Quando o sorgo é mais competitivo que o milho de segunda safra?

Vinícius Pereira Guimarães – O sorgo se torna especialmente competitivo quando a semeadura ocorre após o fechamento da janela de menor risco do milho, quando há maior probabilidade de déficit hídrico ou em solos com menor capacidade de armazenamento de água. Nessas condições, sua maior eficiência no uso da água, seu sistema radicular e o menor custo de produção podem proporcionar melhor relação entre retorno e risco. Além disso, o sorgo não desenvolve o complexo de enfezamentos do milho e produz palhada de boa qualidade. Mas ele não deve ser tratado como cultura de último recurso. Precisa ser implantado dentro do ZARC, com semente adequada, correção e adubação, controle de plantas daninhas e pragas e, preferencialmente, com comprador previamente identificado. Em ambientes favoráveis e dentro da janela ideal, o maior potencial produtivo do milho continua sendo uma vantagem.

AgriBrasilis – Até onde o mercado chinês deve impulsionar a produção brasileira?

Vinícius Pereira Guimarães – O potencial é muito grande. A China responde por cerca de 80% das importações mundiais de sorgo, com compras estimadas em aproximadamente 7,5 milhões de toneladas, volume semelhante a toda a atual produção brasileira. O protocolo bilateral está vigente e cria uma nova fronteira comercial, capaz de trazer escala, liquidez e uma referência adicional de preços. Mas a abertura sanitária não produz embarques automaticamente. Será necessário habilitar estabelecimentos, cumprir rigorosamente os requisitos fitossanitários, assegurar rastreabilidade, padronização, armazenagem, logística e oferta regular a preços competitivos. A China pode acelerar fortemente a expansão, mas não deve ser o único pilar. O crescimento mais saudável virá da combinação entre alimentação animal, etanol, novos usos e exportações para diferentes destinos.

 

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