“A certificação cria uma linguagem comum entre produtores e compradores…”
Marina Muscolo é diretora executiva da Mesa Redonda de Soja Responsável – RTRS, formada em agronomia pela Universidade de Buenos Aires, com MBA pela IAE Business School e cursando mestrado executivo pela ESSEC Business School.
Agribrasilis – O que é a certificação RTRS?
Marina Muscolo – A certificação da Mesa Redonda de Soja Responsável é um sistema global e voluntário que verifica, por meio de auditorias independentes, se a produção de soja atende a critérios ambientais, sociais e econômicos de sustentabilidade. O padrão RTRS exige, entre outros aspectos, conformidade legal, proteção de áreas de alto valor de conservação, boas práticas agrícolas, respeito aos direitos trabalhistas e relacionamento responsável com as comunidades.
Além da certificação de produção, a RTRS também oferece o seu Padrão de Cadeia de Custódia, que estabelece mecanismos de rastreabilidade e controle ao longo da cadeia de suprimentos, permitindo às empresas demonstrar seu compromisso com a aquisição de soja produzida de forma responsável.
Agribrasilis – Quais as vantagens da soja certificada para a cadeia produtiva? Por que ela ainda é uma exceção?
Marina Muscolo – A soja certificada traz benefícios para todos os elos da cadeia. Para os produtores, significa acesso a mercados mais exigentes, melhoria da gestão da propriedade, redução de riscos e maior eficiência operacional. Para traders, indústrias, varejistas e marcas, oferece uma ferramenta reconhecida internacionalmente para demonstrar compromisso com sustentabilidade, rastreabilidade e abastecimento responsável.
Além disso, a certificação cria uma linguagem comum entre produtores e compradores, aumentando a transparência, a credibilidade e a confiança na cadeia.
Nos últimos anos, temos observado um crescimento consistente da demanda por soja produzida de forma responsável, impulsionado por compromissos corporativos, exigências regulatórias e expectativas crescentes de consumidores e investidores. Embora ainda exista um importante potencial de expansão, a certificação RTRS vem ganhando espaço em mercados estratégicos e se consolidando como uma das principais referências globais para a produção responsável de soja.
Um dos desafios para acelerar essa expansão está relacionado à visibilidade da soja junto ao consumidor final. Diferentemente de outros produtos agrícolas, a soja muitas vezes está presente de forma indireta na cadeia de alimentos, seja como ingrediente em produtos processados, seja na alimentação animal. Como resultado, muitos consumidores não percebem o papel fundamental que ela desempenha no sistema alimentar global nem o impacto positivo que a escolha por cadeias produtivas mais sustentáveis pode gerar. Por isso, além de ampliar a oferta certificada, é fundamental fortalecer o reconhecimento e a valorização dos atributos de sustentabilidade ao longo de toda a cadeia.
Agribrasilis – Quanto o mercado paga a mais por tonelada de soja certificada?
Marina Muscolo – Não existe um prêmio fixo global por tonelada de soja certificada RTRS. O valor varia de acordo com fatores como mercado, região, mecanismo utilizado, condições de oferta e demanda e acordos comerciais entre as partes.
Dependendo do modelo adotado, os produtores recebem remuneração adicional pela produção certificada, especialmente por meio da comercialização de créditos RTRS ou de cadeias físicas certificadas que atendam a requisitos específicos dos compradores.
Agribrasilis – Quem paga pela adequação e pelas auditorias: o produtor ou o comprador?
Marina Muscolo – Normalmente, os custos de implementação dos requisitos da certificação e das auditorias são assumidos pelo produtor ou pelo grupo de produtores que buscam a certificação.
Por outro lado, o mercado pode contribuir para compensar esse investimento por meio da compra de Créditos RTRS ou da aquisição de soja certificada com atributos de sustentabilidade reconhecidos. No sistema de Créditos RTRS, o produtor recebe um crédito para cada tonelada de soja certificada produzida, que pode ser comercializado independentemente do fluxo físico da soja.
O modelo foi concebido justamente para criar mecanismos de compartilhamento de valor ao longo da cadeia, permitindo que os benefícios da produção responsável sejam reconhecidos também economicamente.
Agribrasilis – Por que a certificação RTRS, isoladamente, não garante o cumprimento do Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR)?
Marina Muscolo – A RTRS e o EUDR têm objetivos convergentes no combate ao desmatamento e na promoção de cadeias de abastecimento responsáveis. No entanto, o EUDR é uma regulamentação legal da União Europeia que estabelece requisitos específicos de diligência devida, geolocalização, avaliação de riscos e demonstração de conformidade que vão além do escopo de qualquer sistema voluntário de certificação.
A certificação RTRS pode fornecer evidências importantes e reduzir significativamente os riscos para operadores e importadores, mas o cumprimento do EUDR continua sendo responsabilidade das empresas sujeitas à regulamentação. Portanto, a certificação é uma ferramenta relevante de apoio à conformidade, mas não substitui integralmente as obrigações legais previstas pelo regulamento europeu.
Ao mesmo tempo, a RTRS tem trabalhado para apoiar as empresas diante desse novo cenário regulatório. Seu Padrão de Cadeia de Custódia inclui um modelo opcional alinhado aos requisitos do EUDR, oferecendo mecanismos adicionais de rastreabilidade e segregação que podem contribuir para a demonstração da conformidade exigida pelo regulamento europeu.
Agribrasilis – A certificação RTRS poderia substituir a Moratória da Soja no Brasil?
Marina Muscolo – A RTRS e a Moratória da Soja são instrumentos diferentes, com objetivos e mecanismos distintos.
A Moratória da Soja é um acordo setorial específico para o bioma Amazônia brasileira, focado na não comercialização de soja produzida em áreas desmatadas após a data de corte estabelecida pelo compromisso. Já a RTRS é um padrão internacional de certificação voluntária, aplicável em diferentes países e regiões produtoras, que aborda uma gama mais ampla de critérios ambientais, sociais e econômicos.
Em vez de serem vistos como alternativas excludentes, esses instrumentos podem ser complementares. A RTRS oferece uma abordagem abrangente de produção responsável, baseada em padrões internacionalmente reconhecidos e verificação por auditoria independente. Vale destacar que um dos requisitos do Padrão RTRS é o critério de desmatamento e conversão zero, aplicável a todos os biomas e a todos os países onde a soja certificada é produzida. Dessa forma, a RTRS promove a proteção de ecossistemas em escala global, indo além de um contexto geográfico específico.
Enquanto a Moratória atua como um compromisso setorial voltado exclusivamente para a Amazônia brasileira, a RTRS oferece um marco internacional que integra requisitos ambientais, sociais e econômicos em uma única certificação. O avanço da sustentabilidade na cadeia da soja depende da combinação de diferentes ferramentas, iniciativas e políticas capazes de responder aos desafios específicos de cada região e mercado.
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