“Quando a molécula do patógeno se liga ao sensor, ocorre uma mudança física ou química. O nanosensor converte essa alteração em um sinal mensurável…”
Graciela Ávila Quezada é professora-pesquisadora da Faculdade de Ciências Agrotecnológicas da Universidade Autônoma de Chihuahua – UACH, no México. Possui mestrado pela UACH e doutorado em Fitopatologia pelo Colégio de Pós-Graduados. Atua em diagnóstico e controle de doenças de plantas, nanotecnologia e biocontrole. Em 2026, recebeu o Prêmio Nacional de Sanidade Vegetal na categoria Mérito Fitossanitário.
AgriBrasilis – Quais são os principais problemas fitossanitários no México?
Graciela Quezada – O México possui grande diversidade de cultivos, pragas e doenças. Entre os principais problemas estão as pragas regulamentadas por sua importância para a agricultura e, por isso, sujeitas a vigilância, prevenção, controle ou erradicação.
Na citricultura, destacam-se o huanglongbing (HLB), ou greening, causado por bactérias do gênero Candidatus Liberibacter, a leprose e o vírus da tristeza dos citros (Citrus tristeza virus – CTV). No algodão, um dos principais problemas é o bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis).
Também há forte vigilância sobre as moscas-das-frutas [nota da redação: entre as espécies nativas de maior importância econômica estão Anastrepha ludens, Anastrepha obliqua, Anastrepha striata e Anastrepha serpentina].
O México está entre os 20 países com os melhores sistemas de vigilância epidemiológica fitossanitária do mundo, graças à infraestrutura para detectar precocemente pragas e patógenos.
AgriBrasilis – Por que algumas doenças agrícolas são diagnosticadas tardiamente?
Graciela Quezada – Agricultores e técnicos de campo se baseiam inicialmente nos sintomas. O problema é que, quando esses sintomas aparecem, a doença pode estar presente na planta há muito tempo e já ter se disseminado para plantas próximas que ainda não apresentam sinais.
O diagnóstico laboratorial também pode demorar. É necessário coletar uma amostra vegetal com sintomas, enviá-la ao laboratório, processá-la e utilizar diferentes técnicas para identificar o microrganismo causador. Entretanto, quando sabemos que se trata de uma doença causada por fungo, o controle pode ser iniciado imediatamente para tentar preservar a produção.
AgriBrasilis – Como a nanotecnologia pode ser utilizada na identificação e no controle de fitopatógenos?
Graciela Quezada – Existem duas possibilidades: utilizar a nanotecnologia para detectar o patógeno ou para controlá-lo.
Nanosensores são pequenos dispositivos de reconhecimento. Na superfície desses dispositivos, colocamos moléculas capazes de reconhecer alguma característica do patógeno, como uma proteína, um antígeno ou uma sequência específica do material genético.
Quando a molécula do patógeno se liga ao sensor, ocorre uma mudança física ou química. O nanosensor converte essa alteração em um sinal mensurável. Assim, podemos identificar a presença do patógeno.
Um exemplo muito estudado é Phytophthora infestans, agente causador da requeima da batata e do tomate. A ideia é detectar o patógeno quando ainda está presente em concentrações muito baixas, antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
A nanotecnologia também está sendo estudada para o controle. Podemos utilizar nanopartículas como agentes antimicrobianos ou carregá-las com produtos cuja liberação ocorre quando há condições associadas à presença do patógeno. Essa tecnologia ainda está em fase de pesquisa.
AgriBrasilis – Por que agentes de biocontrole eficazes no laboratório podem perder eficiência no campo?
Graciela Quezada – O laboratório possui condições controladas de temperatura, umidade, nutrientes e pH. Quando levamos o microrganismo ao campo, ele precisa enfrentar muitas variáveis.
Um microrganismo pode funcionar bem em solo ácido, mas ter dificuldade para se estabelecer quando aplicado em solo alcalino. O mesmo pode acontecer em razão da temperatura.
Além disso, o microrganismo aplicado não está sozinho. Ele precisa competir com todos os microrganismos que já vivem no solo ou na planta. Existe uma comunidade microbiana cujas populações tendem ao equilíbrio.
Portanto, o desafio é conseguir que o agente de biocontrole sobreviva, estabeleça-se e mantenha a atividade em condições de campo.
AgriBrasilis – Quais pesquisas atuais apresentam maior potencial para gerar aplicações práticas?
Graciela Quezada – Uma das linhas com maior potencial é o diagnóstico integrado ao manejo de doenças. Detectamos o patógeno que afeta a planta, confirmamos o resultado com testes de patogenicidade, identificamos o agente causador e comunicamos o diagnóstico ao agricultor.
Recentemente, diagnosticamos doenças foliares e radiculares em pimentão, além de doenças do tronco e dos ramos em pessegueiro e videira. Publicamos os resultados em artigos e os apresentamos ao setor produtivo.
Também pesquisamos nanotecnologia para o controle de fitopatógenos. Trabalhamos com nanopartículas de prata, quitosano e sílica mesoporosa. A sílica funciona como uma pequena estrutura cheia de poros, na qual podemos carregar um fungicida e desenvolver uma espécie de “tampa” para controlar sua liberação.
A ideia é desenvolver os chamados “fungicidas inteligentes”, que liberem o ingrediente ativo em resposta a um sinal associado ao patógeno. Isso pode tornar o uso dos produtos mais eficiente e reduzir perdas causadas pela chuva, pela radiação solar ou pela degradação ambiental.
AgriBrasilis – Quais são as limitações para a adoção da nanotecnologia em larga escala?
Graciela Quezada – A principal limitação é que a tecnologia ainda está em estágio inicial de desenvolvimento. Existem resultados interessantes em laboratório e alguns estudos em estufa, mas ainda é necessário comprovar que a tecnologia funciona com segurança em condições reais.
Também existem desafios regulatórios e dúvidas sobre o que acontece com as nanopartículas depois que são aplicadas no ambiente.
LEIA MAIS:
