“Como sou produtor de cana, não tenho como me dar o luxo de escolher se vale a pena ou não produzir na safra…”
Sérgio Santin é engenheiro agrônomo formado pela UNESP, produtor de cana-de-açúcar na região de Piracicaba, SP e sócio proprietário da Agrícola e Transporte Santin. Atua na gestão administrativa e financeira do Grupo Santin, que trabalha com a produção de cana-de-açúcar e com serviços de colheita e transporte.
AgriBrasilis – Quais são as principais dificuldades e incertezas para o agricultor na sua região?
Sérgio Santin – O sistema tributário e a reforma tributária que está por vir. Apesar de estar encaminhada, ninguém consegue dar muitas certezas porque há várias questões em aberto, com cláusulas que mudam ou vão sendo aprovadas ao longo do processo.
Mão de obra. Mão de obra qualificada, empenhada e comprometida em realizar as atividades está cada vez mais escassa no campo. Embora os avanços tecnológicos estejam chegando, a qualificação no meio rural — exceto entre aqueles com ensino superior — não evolui na velocidade necessária.
O cenário econômico também vem sendo uma grande incerteza. Com a taxa de juros atual, está complicado para o produtor financiar as culturas — porque a maioria trabalha com dinheiro financiado. No caso da soja e da cana, os preços não estão em patamares que garantam margens confortáveis; pelo contrário, estão apertadas. Ano que vem é ano de eleição, adicionando outra camada de incerteza sobre o cenário atual.
Basicamente, é isso: tributação, juros altos para financiar a lavoura uso do crédito disponível, às vezes subsidiado pelo governo, mas que não supre o montante necessário, levando o produtor a recorrer a financiamentos mais caros.
AgriBrasilis – Como está o acesso ao crédito?
Sérgio Santin – O acesso ao crédito está muito difícil. As normas e prerrogativas para obtenção de crédito estão cada vez mais rígidas. Antes, era possível realizar o penhor agrícola, em que a lavoura era dada como garantia da operação. Devido ao aumento de recuperações judiciais nos últimos anos, os bancos tiveram altos níveis de inadimplência — não apenas de produtores rurais, mas também de grandes players.
Até mesmo na garantia real, o percentual que o banco financiava era maior; agora, é somente com base no valor de venda forçada. Assim, uma garantia que vale R$ 5 milhões permite captar apenas cerca de R$ 1 milhão. E acredito que essa realidade não vá mudar enquanto o Brasil continuar na situação em que se encontra.
AgriBrasilis – Está valendo a pena produzir nesta safra? Qual é a situação dos custos de produção?
Sérgio Santin – Como sou produtor de cana, não tenho o luxo de escolher se vale a pena ou não produzir na safra. O que quero dizer com isso é que, no caso da soja e do milho, em quatro meses colhe-se e encerra-se o ciclo. Na cana, não funciona assim.
Do nosso montante atual, em torno de 5 mil hectares, renovamos entre 700 e 800 hectares este ano. Com isso, posso afirmar que sim, está valendo a pena produzir. Porém, isso se deve à estrutura que já temos. Caso não optássemos pela renovação, toda essa estrutura poderia ser comprometida. Contudo, em relação à expansão de área, não tivemos nenhuma neste ano.
Sobre o custo de produção, preço da cana no ano que vem deve se manter nos mesmos patamares atuais, talvez com uma leve queda. Atualmente, o kg do ATR está na faixa de R$ 1,10, podendo cair para R$ 1,00. Em 2027, deve começar a reagir e, em 2028, apresentar um valor levemente maior — isso com base no mercado futuro, a menos que ocorra algum fator que impacte fortemente o mercado.
AgriBrasilis – Quando e como o senhor decide o que vai plantar, o tamanho da área e a janela de compra de insumos?
Sérgio Santin – Como somos produtores de cana, trabalhamos com contratos mais longos. Assim, em vez de tomarmos decisões anuais, já definimos compromissos para os próximos 4 a 7 anos. Muitas vezes fechamos contratos dentro desse período, porque cerca de 99% da nossa área é arrendada. Sempre optamos por contratos mais longos, com possibilidade de prorrogação.
A janela de compra varia bastante. Procuramos sempre aproveitar as melhores condições em determinadas épocas do ano, quando sabemos que haverá feiras atrativas e condições comerciais especiais. Somos atendidos principalmente pela Coplacana (cerca de 80%), e eventos como a Coplacampo, em fevereiro, e a Agrishow, em maio, costumam oferecer boas oportunidades de negociação.
Como a cana demanda muitas aplicações, além desses fechamentos no início do ano, também surgem pacotes de insumos mais para o final do ano, que vão sendo negociados conforme as necessidades.
Todas essas compras são baseadas no estudo do potencial da lavoura e nas condições disponíveis, como forma de pagamento, prazo, taxa de juros e tamanho da área.
AgriBrasilis – Que novas tecnologias e práticas o senhor tem adotado?
Sérgio Santin – A inovação mais significativa adotada recentemente foi o plantio mecanizado. O plantio era totalmente manual e chegou a ser realizado com distribuidora de mudas, mas esse modelo não evoluiu. Este ano, adquirimos uma plantadora específica e passamos a operar de forma mecanizada.
Outra mudança importante e inovadora foi a alteração do cortador de soqueira: antes utilizávamos o modelo de 3 linhas e agora migramos para o de 2 linhas. Essa adaptação foi necessária para acompanhar o sulcador e garantir maior paralelismo, especialmente porque nossas áreas não são regulares. A mudança aumenta a assertividade das operações, ainda que reduza um pouco a eficiência operacional.
Além disso, utilizamos sistematização de área em todas as lavouras e GPS em todas as máquinas de colheita e no sulcador, o que melhora a precisão das operações e o aproveitamento das áreas.
Também contratamos aplicações com drones — seja para aplicação foliar, maturação ou catação — ampliando a qualidade e o alcance das operações.
Outra prática é a aplicação de inseticida com o adubo líquido, substituindo a aplicação via corte de soqueira. Essa tecnologia está em fase de validação, pois depende da compatibilidade dos produtos utilizados. A adubação líquida nos dá a possibilidade de inserir pesticidas no processo, quando tecnicamente adequado.
Na área administrativa, utilizamos softwares de gestão para melhorar o controle financeiro, acompanhar os custos com mais precisão e direcionar os investimentos.
Além de tudo isso, temos intensificado o uso de produtos biológicos — como nematicidas, fungicidas foliares e aplicações de Beauveria bassiana para controle de Bicudo (Sphenophorus levis).
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