“Glifosato, glufosinato e clorantraniliprole tiveram seus preços reajustados desde setembro. O fator determinante não é a demanda. É um mecanismo de referência de custos que o governo agora incorporou às políticas públicas…”
Zhang Jinlong é pesquisador independente com mais de 20 anos de experiência na indústria de agroquímicos da China e mais de 15 anos de atuação em registro e vendas para o mercado brasileiro. É especialista em desenvolvimento de produtos, registro e gestão de Planejamento de Vendas e Operações (S&OP).

ACE 2026. Fila na entrada sul na manhã de abertura, em 14 de outubro. Segundo a organização, foram registradas mais de 100 mil visitas ao longo dos três dias. Foto: AgroChemEx / CCPIA.
A AgroChem Exhibition (ACE) 2026 foi encerrada em 16 de outubro, no Shanghai World Expo Exhibition and Convention Center. A organizadora, Associação Chinesa da Indústria de Proteção de Cultivos (CCPIA), ocupou quatro pavilhões inteiros, de H1 a H4, com cerca de 80 mil m² de área de exposição, aproximadamente mil expositores e compradores de mais de 120 países. Segundo a organização, o público superou 50 mil visitas no primeiro dia e, ao fim do evento, a associação informou mais de 100 mil visitas nos três dias. Nenhum número auditado foi divulgado.
O volume de pedidos não acompanhou o tamanho da exposição.
Os fabricantes evitavam apresentar cotações e assumir compromissos de venda sem cobertura. As entregas de glufosinato eram programadas, em vez de negociadas livremente. Os vendedores de glifosato sustentavam os preços e disponibilizavam poucos volumes. Os comerciantes mantinham os estoques. Os distribuidores locais compravam apenas o necessário para o dia, um ou dois lotes por vez. A habitual formação de estoques antes do inverno não ocorreu.
Os comerciantes chineses resumem a situação em uma expressão: preços em alta, oferta restrita e pedidos pequenos.
Esse é o quarto trimestre em uma frase: uma tabela de preços em alta diante de uma demanda que ainda não chegou.

ACE 2026. Pavilhão H1. Foto: AgroChemEx / CCPIA.
Duas semanas, seis reajustes de preços
As mudanças ocorreram depois da feira, não por causa dela. Em 18 de outubro, dois dias após o encerramento, o índice de preços de produtos técnicos da Sino-Agri Leading (SAL) estava em 75,25 pontos, alta de 0,69% em relação ao ano anterior e de 2,53% em relação ao mês anterior. Uma semana antes, estava em 73,79 pontos, queda de 1,26% na comparação anual.
Preços de produtos técnicos, 2026

O glifosato atingiu a mínima de US$ 3.782/t em 11 de setembro. Em 16 de outubro, era negociado a US$ 4.318/t, avanço de US$ 447/t em um mês. O glufosinato já havia registrado a máxima do ano, entre US$ 8.189/t e US$ 8.859/t, no fim de setembro, alta de 12% a 18% desde agosto, antes das duas semanas apresentadas no gráfico acima.
Três produtos, três motivos diferentes e um mesmo piso de preços
No caso do glifosato, a explicação está nos custos. O fósforo amarelo em Shandong passou de US$ 3.975 por tonelada, em 8 de julho, para US$ 4.281/t, em 16 de outubro; o metanol no leste da China subiu de US$ 384/t, em 5 de agosto, para US$ 591/t. O glifosato tem a maior base de capacidade produtiva do setor, e os estoques nos canais de distribuição ainda precisam ser escoados. Isso limita o potencial de alta. O mercado espera preços entre US$ 4.169/t e US$ 4.467/t durante o inverno.
No caso do glufosinato, a explicação está em um intermediário químico. O metilfosfonato de dietila (DEM) permaneceu com oferta restrita ao longo de todo o ano. Os prazos de atendimento dos pedidos se alongaram, e a disponibilidade no mercado à vista diminuiu. Duas decisões regulatórias contribuem para esse cenário: as unidades de produção de glufosinato constam da lista de atividades restritas, e a restituição tributária sobre as exportações dos produtos técnicos glufosinato e glufosinato-P foi retirada a partir de 1º de abril de 2026. Na semana encerrada em 25 de setembro, a margem bruta do glufosinato havia se recuperado para US$ 377,71 por tonelada, alta de 232,3% em relação ao mês anterior. A passagem da faixa de US$ 8.189/t a US$ 8.859/t, no fim de setembro, para US$ 10.423/t, em 18 de outubro, representa uma alta de 18% a 27% em três semanas, mais acentuada do que qualquer variação no preço do próprio intermediário.
O glufosinato-P segue a mesma lógica, mas com intensidade maior. A capacidade efetiva de produção está concentrada, há pouco volume disponível para comercialização e os pedidos de exportação e de maior valor agregado têm prioridade na programação. Seu preço passou de US$ 10.423/t para US$ 11.911/t em uma semana.
No caso do clorantraniliprole, a explicação está na segurança industrial. A K-amina é um produto da química de compostos nitrados. Em 11 de setembro, o Ministério de Gestão de Emergências apresentou uma minuta de regras para classificar e consolidar os produtores desse segmento. O ácido 2-nitro-3-metilbenzoico, precursor da K-amina, foi incluído em julho no catálogo de produtos químicos perigosos. A capacidade produtiva que não atende às exigências foi retirada do mercado, e as instalações regulares não conseguem substituí-la rapidamente. A trajetória dos preços neste ano foi a seguinte: US$ 28,29/kg em janeiro, pico de US$ 47,65/kg em abril, recuo para aproximadamente US$ 32,76/kg em meados do ano e, depois, US$ 41,69/kg em 18 de outubro.

Cotações anteriores à ACE comparadas às de 20 de outubro. O cinza representa o patamar anterior à feira (14 a 16 de outubro); o vermelho indica a cotação uma semana depois, com o segmento sólido representando o limite inferior da faixa. As datas de observação diferem das utilizadas na série semanal da tabela acima. Fonte: Sino-Agri Leading, dados de 20 de outubro de 2026.
O piso de preços tem um valor definido
O que une os três produtos não é a curva de custos. É um valor publicado.
Em 10 de fevereiro de 2026, a CCPIA publicou o documento Zhongnongxie [2026] nº 20, uma iniciativa para regulamentar as práticas de produção e comercialização de clorantraniliprole. A entidade calculou o custo médio do setor em US$ 34.692 por tonelada, sem incluir três itens de despesas, e orientou seus associados a adotar esse parâmetro. Também identificou práticas que consideraria formas disfarçadas de venda abaixo do custo: vendas com proteção de preços, emissão de notas fiscais com valor inferior ao da mercadoria entregue, abatimentos, devoluções, reembolsos em dinheiro e descontos. A abamectina recebeu tratamento semelhante em dezembro de 2025, com valor de referência de US$ 67,45 por quilograma.
Posteriormente, o governo incorporou o método às políticas públicas. O documento Fagai Jiage [2026] nº 1303, assinado em 3 de setembro e publicado em 10 de setembro, estabelece como devem ser calculados os custos para avaliar a concorrência abaixo do custo em produtos industriais importantes. O princípio é considerar o custo individual. Quando não for possível determiná-lo, aplica-se o custo médio do setor. A utilização da capacidade produtiva também deve ser levada em conta. Cabe às associações setoriais calcular essa média, sob orientação da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma e do órgão regulador de mercado.
“Uma fábrica que apresenta cotação abaixo da média publicada agora precisa justificar sua estrutura de custos perante o órgão regulador. Uma fábrica que apresenta cotação acima dela não precisa.”
É isso que altera o comportamento do mercado. A fiscalização ocorre em duas etapas: primeiro, uma advertência; depois, uma investigação dos custos. O resultado é um piso de preços visível para todos os vendedores, sem um incentivo evidente para que algum deles o desrespeite.
Os grupos de coordenação ajudam a sustentar esse piso. A CCPIA mantém, no âmbito de seu comitê de autorregulação, grupos dedicados a produtos de grande volume, como glifosato, glufosinato, clorantraniliprole e abamectina. O grupo do glifosato se reuniu em Pequim em 9 de setembro de 2026, com a presença de todos os principais fabricantes, e concordou em combinar autorregulação e supervisão regulatória. O grupo do glufosinato se reuniu em Xangai pouco antes da ACE, com uma pauta dividida em três pontos: combater a concorrência irracional, regulamentar a ordem do setor e aperfeiçoar a governança setorial.
Em 14 de outubro deste ano, na abertura da 26ª China Pesticide Industry Exchange, realizada no mesmo local da feira, o presidente da CCPIA, Yan Duanxiang, incluiu o mecanismo entre as seis tarefas do próximo plano quinquenal. Segundo ele, os grupos de produtos de grande volume devem calcular os custos de maneira realista, propor conjuntamente uma faixa de custos razoável e observar efetivamente as regras de custos e preços.
Há seis semanas, analisei o documento nº 1303 e questionei se uma regra de apuração de custos poderia mudar o comportamento na formação de preços. As tabelas de cotações divulgadas desde setembro oferecem a primeira resposta.
Os produtos que vieram em seguida
Os inseticidas nicotínicos acompanharam os líderes com uma semana de atraso. O imidacloprido passou de US$ 10.720/t para US$ 11.614/t; o acetamiprido, de US$ 9.380/t para US$ 10.125/t. O tiametoxam permaneceu em US$ 8.338/t. A justificativa apresentada é a pressão de custos sobre toda a classe. O momento das mudanças é revelador: esses inseticidas tiveram seus preços reajustados depois dos três produtos principais, e não antes.
O movimento ainda é restrito. Dos mais de cem produtos que compõem o índice, 34% apresentavam alta anual em 18 de outubro, enquanto 58% registravam queda. Na comparação mensal, 35% subiram e 16% caíram. O índice passou para o campo positivo, mas o mercado não apresenta uma tendência uniforme.
Exportações: três meses de queda nos três principais mercados
Jinlong Zhang acompanha os dados alfandegários em tempo real e compartilhou sua análise em 21 de outubro. As exportações chinesas de produtos formulados somaram 248.000 toneladas em setembro, queda anual de 12,9%. Em julho, o recuo havia sido de 11,7% e, em agosto, de 20,5%. Setembro foi o terceiro mês consecutivo de queda.
Exportações chinesas de produtos formulados, 2026


Exportações de produtos formulados: volume mensal e preço médio de exportação. Fonte: Alfândega da China (GACC), código SH 3808, 16 posições tarifárias.
O valor exportado recua mais lentamente que o volume. Em setembro, foi de US$ 782 milhões, queda de 6,8%, enquanto o preço médio chegou a US$ 3.151 por tonelada, alta de 7,0%. Essa diferença mostra como um piso de preços aparece nas estatísticas de comércio exterior: saem menos toneladas, mas cada uma tem preço mais alto.
O primeiro semestre foi o período mais forte. De janeiro a junho, os volumes ficaram 15,9% acima dos registrados em 2025. Entre julho e setembro, ficaram 15,1% abaixo. No acumulado de nove meses, as exportações ainda superam as do ano passado, com 2,707 milhões de toneladas, alta de 5,0%, e US$ 8,09 bilhões, avanço de 10,0%. O resultado acumulado do ano não é negativo. O ritmo de crescimento, porém, perdeu força.
Setembro também foi o primeiro mês deste ano em que os três principais mercados recuaram simultaneamente. O Brasil importou 42.700 toneladas, queda de 42,4% — o maior recuo mensal do ano e o terceiro consecutivo, após o pico de 106.600 toneladas em junho, do qual restou menos da metade em setembro. Os Estados Unidos inverteram a tendência: alta de 90,8% em julho e de 72,8% em agosto, seguida de queda de 20,0% em setembro. A Argentina registrou recuo de 8,2%.

Setembro em comparação com o acumulado de nove meses: variação do volume em relação a 2025. Setembro foi o primeiro mês do ano em que os três mercados recuaram simultaneamente. Fonte: Alfândega da China (GACC), código SH 3808.
A divisão por categoria mostra onde está o poder de formação de preços. Os herbicidas, com 1,9 milhão de toneladas em nove meses, cresceram 2,3% em volume e 14,4% em valor, com alta de 11,9% no preço médio. Os inseticidas seguiram na direção oposta: aumento de 20,4% no volume e de 3,4% no valor, com recuo de 14,1% no preço médio. Os fungicidas perderam 5,6% do volume, mas registraram alta de 6,3% no preço.
Esse é o resultado mais próximo de um experimento natural que os dados oferecem. Os herbicidas, cujos grupos de coordenação existem há mais tempo, mostram volume estável e preços em alta. Os inseticidas, com grupos mais recentes e menos estruturados, apresentam volume crescente e preços em queda. A composição da cesta de produtos explica parte dessa diferença, mas não toda.

Variação de janeiro a setembro no volume e no preço médio de exportação, por categoria. Os herbicidas, cujos grupos de coordenação são mais antigos, apresentam volume estável e preços em alta. Fonte: Alfândega da China (GACC), código SH 3808.
Três fatores pressionam simultaneamente o quarto trimestre. A América do Sul está no fim de sua temporada de compras, e a demanda restante é pequena. A América do Norte deveria estar iniciando seu período de compras, mas a disputa tarifária antecipou os embarques para julho e agosto, deixando setembro com pouca movimentação. Além disso, a formação de estoques domésticos para o inverno ainda não começou, porque os distribuidores não querem manter mercadorias nesses níveis de preços.
Esse é o impasse. A disciplina da oferta eleva os preços em um contexto de demanda insuficiente. Um piso pode se sustentar enquanto o volume cai. Não pode se sustentar se o volume cai e os estoques aumentam.
O que poderia romper esse equilíbrio
Se a formação de estoques para o inverno começar com o glifosato a US$ 4.392/t e o glufosinato a US$ 10.423/t. Se os distribuidores permanecerem fora do mercado até novembro, o piso existirá apenas no papel, enquanto os estoques ficarão nas fábricas.
Se as exportações se estabilizarem. A queda de setembro foi menor que a de agosto, e o valor exportado se sustentou. Mais dois meses de recuos de um dígito indicariam que o mercado está absorvendo o piso de preços. Um retorno ao ritmo de queda de agosto indicaria o contrário.
Se o modelo de referência de custos se disseminar. Quatro produtos já têm um valor de custo publicado. A classe dos inseticidas nicotínicos, com imidacloprido a US$ 11.614/t, ainda não tem.
Se a oferta de metilfosfonato de dietila melhorar. O mercado de glufosinato é o mais forte dos três e também o mais exposto à disponibilidade de um único intermediário.
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