“O agricultor não pode arcar sozinho com os custos da sustentabilidade quando os benefícios são compartilhados por toda a cadeia…”
Daniela Mariuzzo é engenheira de alimentos, mestre pela Unicamp e doutora em Biotecnologia pela Universidade de Barcelona. Possui mais de 25 anos de experiência em sustentabilidade, agronegócio e finanças sustentáveis, com passagens por Rabobank, Monsanto, IDH e IFC, do Grupo Banco Mundial. Participou da governança de iniciativas internacionais de sustentabilidade agropecuária, como RTRS, GTPS e GRSB, e liderou a estratégia de sustentabilidade financeira da Reg.IA, com foco em agricultura regenerativa, acesso a capital e valorização socioambiental dos produtores rurais.
AgriBrasilis – Como transformar desempenho socioambiental em retorno financeiro para o agricultor?
Daniela Mariuzzo – Precisamos começar por uma questão essencial: o agricultor não pode arcar sozinho com os custos da sustentabilidade quando os benefícios são compartilhados por toda a cadeia.
Melhorar o manejo do solo, usar a água com eficiência e conservar a vegetação nativa pode reduzir riscos e aumentar a resiliência da produção. Mas esses ganhos nem sempre são reconhecidos financeiramente.
Precisamos conectar resultados verificáveis a benefícios concretos: condições de crédito mais adequadas, contratos comerciais diferenciados, acesso a mercados e, quando couber, remuneração por serviços ambientais. Isso exige informações confiáveis, mas também compradores e financiadores dispostos a utilizá-las.
Para mim, a questão é simples: sustentabilidade precisa gerar valor também para quem produz.
AgriBrasilis – De que formas os riscos ambientais estão influenciando decisões de crédito e investimento? Que indicadores ambientais têm maior relevância?
Daniela Mariuzzo – Os riscos ambientais e climáticos já influenciam o crédito porque podem afetar diretamente a capacidade de pagamento. Uma seca prolongada, a degradação do solo ou uma restrição de uso da terra não são questões externas ao negócio: podem comprometer produtividade, custos e garantias.
Na minha experiência com instituições financeiras, o desafio é traduzir esses fatores em decisões de crédito proporcionais ao risco.
Considero relevantes a conformidade ambiental e fundiária, o histórico de conversão de vegetação nativa, a disponibilidade hídrica, as condições do solo e a exposição a eventos climáticos extremos. Em determinadas operações, emissões e biodiversidade também são importantes.
Não existe, porém, uma lista universal. Os indicadores precisam fazer sentido para a atividade, a região e o prazo do financiamento. E devem servir não apenas para excluir riscos, mas também para identificar oportunidades de melhoria.
AgriBrasilis – Que mecanismos podem viabilizar o financiamento de produtores em transição para práticas mais sustentáveis?
Daniela Mariuzzo – Esse é um dos maiores desafios da transição: o produtor investe hoje, mas parte dos benefícios só aparece depois de algumas safras. Recuperar o solo ou implantar sistemas integrados pode exigir recursos, assistência técnica e tempo de adaptação. Não é razoável esperar que ele assuma sozinho todo esse risco.
Precisamos de crédito com prazos e carências compatíveis com o ciclo produtivo, garantias, mecanismos de compartilhamento de riscos e estruturas de blended finance.
A assistência técnica é tão importante quanto o recurso financeiro, porque ajuda a transformar investimento em resultado.
Também considero fundamental reconhecer trajetórias de melhoria. Se financiarmos apenas quem já alcançou padrões elevados de sustentabilidade, deixaremos de apoiar justamente os produtores que precisam fazer a transição.
AgriBrasilis – A senhora lidera a estratégia financeira da Reg.IA. Quais foram os principais aprendizados do projeto até o momento?
Daniela Mariuzzo – Na Reg.IA, um aprendizado central foi perceber, na prática, a diferença entre demonstrar desempenho socioambiental e conseguir transformá-lo em valor econômico. Uma informação pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, não encontrar quem esteja disposto a pagar por ela.
Por isso, na estratégia financeira, buscamos entender quem utiliza essas informações, que problema elas resolvem e como estruturar serviços que tenham demanda e sustentabilidade econômica no longo prazo.
Outro aprendizado é que monitoramento e verificação precisam ser confiáveis, mas também acessíveis. Uma solução sofisticada demais pode se tornar inviável para o produtor ou para quem financia.
Estamos trabalhando com possibilidades complementares de geração de valor, considerando diferentes perfis de produtores e necessidades de mercado.
A lição, para mim, é que dados ambientais só produzem transformação em escala quando entram efetivamente nas decisões comerciais e financeiras.
AgriBrasilis – O que é capital catalítico e qual é sua importância para financiar a agricultura regenerativa?
Daniela Mariuzzo – Gosto de explicar o capital catalítico pela sua função: é o recurso utilizado para viabilizar investimentos que, nas condições tradicionais de mercado, dificilmente aconteceriam ou teriam escala limitada.
Ele pode assumir a forma de garantias, recursos concessionais, capital subordinado ou apoio técnico, dependendo da estrutura.
Na agricultura regenerativa, isso faz diferença porque os custos da mudança frequentemente vêm antes dos retornos. O capital catalítico pode ajudar a distribuir riscos e atrair bancos e investidores comerciais para financiar essa fase de transição.
Mas não se trata simplesmente de oferecer dinheiro barato. O objetivo é demonstrar que determinados modelos são financiáveis e, com o tempo, reduzir a necessidade de apoio concessional. É assim que uma experiência promissora pode se transformar em mercado.
AgriBrasilis – A senhora afirma que o Brasil tem vantagens para atrair capital sustentável. Quais são essas vantagens e como podem ser convertidas em mais investimentos?
Daniela Mariuzzo – O Brasil reúne vantagens difíceis de encontrar em um mesmo país: escala agrícola, conhecimento científico sobre produção tropical, capacidade tecnológica e grandes oportunidades de recuperar áreas degradadas e elevar a produtividade sem converter nova vegetação nativa.
Mas potencial não vira investimento automaticamente. Precisamos de segurança jurídica, dados confiáveis, projetos bem estruturados, gestão de riscos e resultados que possam ser demonstrados.
Também é necessário aproximar produtores, compradores, bancos, investidores e políticas públicas, para que boas iniciativas não fiquem isoladas.
Vejo oportunidades importantes, mas prefiro não tratar o capital sustentável como algo garantido. Investidores precisam enxergar retorno, riscos administráveis e capacidade de execução. O Brasil pode oferecer isso.
Nossa tarefa é transformar vantagens reais em operações financiáveis, nas quais produtividade e conservação caminhem juntas.
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