“A sugestão é não concentrar toda a compra em um único momento e investir em fornecedores seguros e confiáveis”
Felipe Pecci é vice-presidente comercial da The Mosaic Company, em Tampa, Flórida, nos Estados Unidos. Graduado em Administração de Empresas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), também possui pós-graduação em Administração de Negócios pelo Insper.
AgriBrasilis – Qual foi sua trajetória até chegar ao mercado internacional de fertilizantes?
Felipe Pecci – Dediquei os primeiros anos da minha carreira à área de consultoria em uma multinacional. Atuei principalmente em projetos ligados à securitização de recebíveis, fusões e aquisições e estratégias de acesso a mercado.
AgriBrasilis – Trabalhar no exterior mudou a sua percepção sobre o setor?
Felipe Pecci – Sim. Ainda que conectadas por intensos fluxos globais de abastecimento, as cadeias de valor de cada região em que pude atuar carregam muito de sua cultura, de seu momento econômico e das possibilidades locais.
Por mais que eu tenha me preparado para encontrar diferenças, somente vivenciando essas realidades pude compreender a profundidade dessas nuances e como elas são capazes de determinar perspectivas, ângulos e competências distintas.
O agronegócio brasileiro tem um dinamismo único. O setor registra crescimento acelerado, alta relevância econômica, diversidade de demanda e forte capacidade de adoção e geração de tecnologia. Por tudo isso, o Brasil forma um polo de talentos diferenciado e cada vez mais valorizado globalmente.
AgriBrasilis – O que o Brasil precisa aprender sobre a dinâmica do mercado de fertilizantes?
Felipe Pecci – Mais do que aprender, precisamos manter atenção constante à nossa matriz de abastecimento. O Brasil reúne grande escala agrícola, potencial relevante de expansão e oportunidades de ganho de eficiência, mas segue altamente dependente de importações.
Saímos de cerca de 30 milhões para mais de 40 milhões de toneladas de fertilizantes em uma década, com mais de 85% do volume vindo do exterior. Isso aumenta a sensibilidade da cadeia e reforça a importância de garantir disponibilidade no momento certo.
O país tem sido relativamente resiliente a disrupções, o que pode suavizar a percepção de risco. Em outros mercados, esse risco é tratado com mais cautela. Dado o potencial do agro brasileiro, o maior erro seria perder produtividade por falhas de suprimento.
AgriBrasilis – Como o mercado está reagindo ao atual cenário geopolítico?
Felipe Pecci – Os conflitos no Oriente Médio acentuaram uma situação temporária de margens mais comprimidas e relações de troca menos favoráveis ao agricultor, principalmente no caso da soja e do milho.
O primeiro efeito prático é o atraso na comercialização de fertilizantes em relação à média histórica. Essa é uma resposta natural ao cenário atual, mas pode se tornar perigosa à medida que os custos logísticos tendem a aumentar quanto mais atrasado o sistema fica.
Estamos entrando em junho de 2026, e a comercialização de fertilizantes está cerca de 15 pontos percentuais abaixo do mesmo período do ano passado.
Ao mesmo tempo, é justamente nesse ambiente que surgem oportunidades. Esse cenário tem impulsionado a busca por manejo mais técnico do solo e por soluções complementares, como a bionutrição, com foco em maximizar a produtividade.
AgriBrasilis – O que é mais importante nas decisões de compra de fertilizantes?
Felipe Pecci – Por serem grandes direcionadores da produtividade, os fertilizantes envolvem muitas variáveis e exigem um processo de aquisição bem estruturado.
No contexto atual, eu listaria a gestão de risco como item imprescindível. A volatilidade dos preços de fertilizantes aumentou muito nos últimos anos com o acirramento dos conflitos geopolíticos. Isso faz com que tanto o momento da compra quanto a segurança da matriz de abastecimento escolhida sejam exponencialmente mais importantes.
A sugestão é não concentrar toda a compra em um único momento e investir em fornecedores seguros e confiáveis, com estrutura para navegar em cenários mais desafiadores.
AgriBrasilis – Na sua opinião, quais mudanças podem surpreender o agro nos próximos anos?
Felipe Pecci – Vou tentar sair da resposta padrão, que naturalmente apontaria para tecnologia, com foco em inteligência artificial, sustentabilidade, evolução da financeirização, ferramentas de crédito e desafios de mão de obra. Todas essas são tendências reais e importantes, mas não necessariamente surpreendentes.
Acredito que o setor pode se deparar com desafios importantes de produtividade nos próximos ciclos, em várias geografias, não apenas no Brasil. Isso decorre, entre outros fatores, da redução na aplicação de fertilizantes em momentos de margens mais apertadas para os agricultores.
Clima favorável e uma possível reserva de nutrientes no solo impediram que essa consequência fosse imediata. No entanto, essa reserva já deve ter sido consumida em muitos casos. Basta uma combinação um pouco menos favorável, como um evento de El Niño, para que os desvios de produtividade se materializem de forma mais intensa do que muitos modelos indicam atualmente.
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