Uso de pesticidas no Brasil ainda carece de monitoramento integrado, aponta pesquisador da Embrapa

Published on: February 2, 2026

“O Brasil ainda não dispõe de uma base nacional integrada e contínua que permita um diagnóstico abrangente e preciso sobre a contaminação ambiental por pesticidas…”

Robson Barizon é chefe de pesquisa e desenvolvimento na Embrapa Meio Ambiente. É formado em agronomia pela UFPR, mestre pela UNESP e doutor em Ciências do Solo pela USP. Especializou-se internacionalmente em Toxicologia pela Universidade de Guelph (Canadá) e, recentemente, expandiu sua atuação com um MBA Executivo em Gestão de Projetos pela USP.


AgriBrasilis – Qual o nível de contaminação de pesticidas no meio ambiente?

Robson Barizon – O Brasil ainda não dispõe de uma base nacional integrada e contínua que permita um diagnóstico abrangente e preciso sobre a contaminação ambiental por pesticidas.

Na última década, houve um aumento relevante do número de estudos conduzidos por universidades e centros de pesquisa brasileiros, baseados em monitoramentos pontuais e regionais. Esses estudos demonstram a presença de resíduos de pesticidas em diferentes matrizes ambientais, como águas superficiais, sedimentos e solos.

É importante destacar que esses estudos se concentram majoritariamente em regiões onde há maior infraestrutura de pesquisa e maior disponibilidade de dados, o que limita a extrapolação dos resultados para todo o território nacional. Assim, a maior frequência de detecção observada nessas áreas reflete, em grande medida, um viés de cobertura amostral, e não necessariamente um padrão representativo do país como um todo.

Ainda assim, os resultados disponíveis indicam que os níveis detectados podem representar risco para organismos aquáticos e para a biodiversidade, especialmente quando consideradas exposições crônicas e a presença simultânea de múltiplos compostos. 

AgriBrasilis – Como ocorre essa contaminação?

Robson Barizon – A contaminação ambiental por pesticidas ocorre principalmente a partir do deslocamento desses compostos após a aplicação agrícola. Entre as principais rotas estão a deriva durante a pulverização, o transporte atmosférico por volatilização e deposição, e o escoamento superficial associado às chuvas, que pode levar resíduos para cursos d’água, reservatórios e sedimentos.

Esse quadro se torna mais complexo com o aumento de eventos extremos, como chuvas intensas e temperaturas elevadas, que tendem a intensificar essas rotas de transporte e dificultar o controle ambiental do uso de pesticidas.

AgriBrasilis – Boas práticas de aplicação garantem a não contaminação ambiental? Por quê?

Robson Barizon –  As boas práticas de aplicação são fundamentais para reduzir significativamente o risco de contaminação ambiental, mas não garantem a sua eliminação completa. Isso ocorre porque, mesmo quando todas as recomendações técnicas são seguidas — como dose correta, tecnologia de aplicação adequada e condições climáticas favoráveis — parte dos pesticidas ainda pode ser transportada pelo ambiente por processos físicos e químicos inerentes ao seu uso.

No Brasil, há evidências de contaminação ambiental inclusive em áreas onde se presume a adoção sistemática de boas práticas agrícolas, como regiões com produção canavieira em larga escala, caracterizadas por maior nível de tecnificação e controle operacional. Resultados semelhantes são observados em países com economias mais desenvolvidas e estruturas regulatórias mais robustas, indicando que a ocorrência de resíduos no ambiente não está associada apenas a falhas operacionais, mas também a limitações intrínsecas ao próprio uso desses insumos.

AgriBrasilis – Quais práticas de aplicação reduzem os riscos ambientais sem perder a eficácia agronômica? 

Robson Barizon – A redução dos riscos ambientais associados ao uso de pesticidas exige uma abordagem integrada, capaz de manter a eficácia agronômica ao mesmo tempo em que minimiza perdas para o ambiente. Práticas de conservação do solo, como o plantio direto, a manutenção de cobertura vegetal e o manejo adequado da palhada, reduzem a erosão e o escoamento superficial, diminuindo o transporte de resíduos para corpos d’água. Nesse conjunto de estratégias, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) desempenha um papel central ao racionalizar o uso de pesticidas com base em monitoramento e níveis de ação, embora tenha sido progressivamente negligenciado em muitas cadeias produtivas no Brasil, o que contribui para o aumento da dependência de aplicações químicas.

De forma complementar, o uso adequado de tecnologia de aplicação e de ferramentas de agricultura digital permite intervenções mais precisas e eficientes, reduzindo perdas por deriva e aumentando a eficiência do controle. Associadas a essas práticas, ações de ecologia da paisagem, como a manutenção das Áreas de Preservação Permanente ao longo de cursos d’água, atuam como zonas de amortecimento, reduzindo a exposição de ambientes sensíveis e completando uma estratégia de redução de riscos ambientais sem prejuízo da produtividade agrícola. 

AgriBrasilis – O senhor considera que o monitoramento ambiental de pesticidas é adequado? 

Robson Barizon –  O monitoramento ambiental de pesticidas é uma ferramenta essencial para a gestão de riscos, pois só é possível gerenciar adequadamente aquilo que é conhecido. No Brasil, entretanto, ainda há uma lacuna importante de programas estruturados e contínuos voltados especificamente ao monitoramento ambiental, especialmente em matrizes como águas superficiais, sedimentos e solos.
Apesar disso, destacam-se iniciativas relevantes, como o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Anvisa, e o Sisagua, do Ministério da Saúde, voltado à água para consumo humano. O Sisagua cumpre um papel importante na vigilância da qualidade da água, mas, por sua própria concepção, apresenta limitações de escopo para a avaliação de riscos ambientais e ecológicos, o que reforça a necessidade de iniciativas complementares de monitoramento ambiental no território brasileiro.

AgriBrasilis – Quais foram os principais achados da Embrapa sobre atrazina e metabólitos na Bacia do Rio Dourados? 

Robson Barizon – Esse estudo específico foi conduzido por outra equipe da Embrapa, sob a coordenação do pesquisador Rômulo Scorza Júnior. Por rigor técnico, o mais adequado é que os resultados sejam apresentados pela própria equipe responsável.

AgriBrasilis – Neste cenário, que ações são recomendadas para mitigar ou minimizar possíveis danos ambientais?

Robson Barizon – A mitigação de possíveis danos ambientais exige a adoção integrada de diferentes medidas, começando por práticas de conservação do solo e da água — como plantio direto, manutenção de cobertura e terraceamento — que reduzem o escoamento superficial e o transporte de resíduos para os corpos d’água. Em paralelo, é essencial reduzir a dependência de pesticidas por meio do Manejo Integrado de Pragas (MIP), com destaque para o controle biológico, aliado à escolha de produtos com melhor perfil toxicológico e ambiental, sempre que tecnicamente viável. A tecnologia de aplicação contribui ao aumentar a eficiência e a precisão das pulverizações, reduzindo perdas e podendo diminuir a quantidade efetivamente aplicada, sem comprometer a eficácia agronômica. Por fim, a proteção dos cursos d’água, por meio da manutenção de APPs e faixas vegetadas, completa esse conjunto de ações voltadas à redução de riscos ambientais.

 

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