“…custos elevados, maior seletividade e acesso mais limitado ao financiamento…”
Cleiton Gauer é superintendente no Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária – IMEA, engenheiro-agrônomo pela Universidade Federal de Pelotas, com pós-graduação em gestão de negócios pela Fundação Dom Cabral.
AgriBrasilis – Como as Recuperações Judiciais (RJs) impactam o agro do MT?
Cleiton Gauer – Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio de Mato Grosso vêm crescendo desde 2023, com o estado liderando nacionalmente as solicitações por produtores rurais pessoa física e, a partir de 2024, também entre pessoas jurídicas.
Esse avanço impacta o setor para além dos produtores diretamente envolvidos, ao pressionar a cadeia agroindustrial como um todo. A concentração de renegociações afeta o fluxo de caixa de fornecedores de insumos, cooperativas e tradings, além de elevar a percepção de risco no sistema financeiro.
Como resultado, observa-se maior rigor na concessão de crédito e restrição de capital nas safras seguintes. Assim, o aumento das recuperações judiciais contribui para um ambiente de crédito mais seletivo e oneroso para o agronegócio mato-grossense.
AgriBrasilis – Qual é o cenário do crédito?
Cleiton Gauer – O cenário do crédito rural em Mato Grosso na safra 2025/26 permanece restritivo, com custos elevados, maior seletividade e acesso mais limitado ao financiamento. Após um período de forte expansão, entre as safras 2017/18 e 2023/24, quando o volume de crédito utilizado no estado cresceu 174,33%, passando de R$ 17,29 bilhões para R$ 47,42 bilhões, observa-se desaceleração a partir de 2024/25, movimento que se mantém na safra 2025/26.
Essa inflexão ocorre em um contexto de juros mais altos, margens operacionais mais estreitas, custos de produção ainda elevados e aumento da percepção de risco, intensificada pela maior inadimplência e pela elevação dos pedidos de recuperação judicial ao longo da cadeia agroindustrial. Como resposta, bancos e demais agentes financeiros adotaram critérios mais rigorosos de concessão, com exigência ampliada de garantias e maior seletividade nas operações. Observa-se que os recursos públicos têm perdido lugar.
Em síntese, o crédito no estado segue disponível, porém mais caro, seletivo e concentrado em perfis de menor risco, limitando a expansão do financiamento e exigindo maior capacidade de gestão financeira por parte dos produtores.
AgriBrasilis – O que mudou nas exigências de garantias para o produtor?
Cleiton Gauer – Houve um endurecimento claro e documentado nas exigências de garantias.
Principais mudanças:
- Reforço da alienação fiduciária, especialmente nas operações bancárias.
- Adoção mais rigorosa de métricas de avaliação de perfil.
- Prioridade para operações com menor exposição ao risco, favorecendo produtores com estrutura patrimonial, histórico e governança.
O Funding do Imea aponta que, apesar do aumento da participação do sistema financeiro (35,42% do custeio), esse crédito foi concedido sob condições mais rígidas e seletivas, não representando afrouxamento do mercado.
AgriBrasilis – Quando o crédito aperta, qual é o primeiro ajuste que o produtor faz?
Cleiton Gauer – O primeiro ajuste do produtor é financeiro e operacional, antes de qualquer decisão produtiva mais profunda.
A sequência mais comum é:
- Redução ou postergação de investimentos (ajuste na área produtiva e no parque de máquinas);
- Alongamento de prazos com fornecedores;
- Ajuste no pacote tecnológico, priorizando custo e eficiência: o maior uso de genéricos, revisão das doses de aplicações marginais;
- Renegociação de arrendamentos e contratos de serviços;
- Maior uso de recursos próprios, em especial operações de barter.
AgriBrasilis – Por que o produtor está recorrendo mais ao crédito bancário?
Cleiton Gauer – O produtor está recorrendo mais ao crédito bancário por necessidade, não por preferência.
Os principais indicadores são:
- Forte retração das revendas, cuja participação caiu de 11,45% para 5,25%, em função de falências e RJs;
- Redução da oferta de crédito comercial tradicional, especialmente a prazo;
- Maior robustez financeira dos bancos, que conseguiram absorver parte do risco deixado por outros agentes;
- Inclusão das linhas próprias dos bancos privados
Como resultado, o Sistema Financeiro passou a responder por 35,42% do custeio da soja em MT, tornando-se o principal financiador da safra 2025/26.
AgriBrasilis – Que instrumentos estão preenchendo o espaço deixado pelo crédito (CPR, barter etc.)?
Cleiton Gauer – O espaço deixado pelo crédito tradicional está sendo preenchido por uma combinação de instrumentos privados e estruturados:
- CPR (financeira e física) – Ferramenta relevante de crédito privado, central em cenários de restrição.
- Barter estruturado – Ganhou mais relevância, especialmente via multinacionais e tradings, com maior controle de risco.
- Operações estruturadas no mercado de capitais – CRA, CDCA e FIDC, mais comuns para produtores médios e grandes.
- FIAGROs – Permanecem existentes, embora com apetite mais seletivo.
- Autofinanciamento – Uso de capital próprio oriundo da safra anterior, reduzindo liquidez futura.
- Venda antecipada com travas de preço – Usada como mecanismo de destravamento de crédito.
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