Crédito rural em MT: mais caro, mais seletivo (e sob pressão das RJs)

Published on: January 22, 2026

“…custos elevados, maior seletividade e acesso mais limitado ao financiamento…”

Cleiton Gauer é superintendente no Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária – IMEA, engenheiro-agrônomo pela Universidade Federal de Pelotas, com pós-graduação em gestão de negócios pela Fundação Dom Cabral.


AgriBrasilis – Como as Recuperações Judiciais (RJs) impactam o agro do MT?

Cleiton Gauer – Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio de Mato Grosso vêm crescendo desde 2023, com o estado liderando nacionalmente as solicitações por produtores rurais pessoa física e, a partir de 2024, também entre pessoas jurídicas.

Esse avanço impacta o setor para além dos produtores diretamente envolvidos, ao pressionar a cadeia agroindustrial como um todo. A concentração de renegociações afeta o fluxo de caixa de fornecedores de insumos, cooperativas e tradings, além de elevar a percepção de risco no sistema financeiro.

Como resultado, observa-se maior rigor na concessão de crédito e restrição de capital nas safras seguintes. Assim, o aumento das recuperações judiciais contribui para um ambiente de crédito mais seletivo e oneroso para o agronegócio mato-grossense.

AgriBrasilis – Qual é o cenário do crédito?

Cleiton Gauer – O cenário do crédito rural em Mato Grosso na safra 2025/26 permanece restritivo, com custos elevados, maior seletividade e acesso mais limitado ao financiamento. Após um período de forte expansão, entre as safras 2017/18 e 2023/24, quando o volume de crédito utilizado no estado cresceu 174,33%, passando de R$ 17,29 bilhões para R$ 47,42 bilhões, observa-se desaceleração a partir de 2024/25, movimento que se mantém na safra 2025/26.

Essa inflexão ocorre em um contexto de juros mais altos, margens operacionais mais estreitas, custos de produção ainda elevados e aumento da percepção de risco, intensificada pela maior inadimplência e pela elevação dos pedidos de recuperação judicial ao longo da cadeia agroindustrial. Como resposta, bancos e demais agentes financeiros adotaram critérios mais rigorosos de concessão, com exigência ampliada de garantias e maior seletividade nas operações. Observa-se que os recursos públicos têm perdido lugar.

Em síntese, o crédito no estado segue disponível, porém mais caro, seletivo e concentrado em perfis de menor risco, limitando a expansão do financiamento e exigindo maior capacidade de gestão financeira por parte dos produtores.

AgriBrasilis – O que mudou nas exigências de garantias para o produtor?

Cleiton Gauer – Houve um endurecimento claro e documentado nas exigências de garantias.

Principais mudanças:

  • Reforço da alienação fiduciária, especialmente nas operações bancárias.
  • Adoção mais rigorosa de métricas de avaliação de perfil.
  • Prioridade para operações com menor exposição ao risco, favorecendo produtores com estrutura patrimonial, histórico e governança.

O Funding do Imea aponta que, apesar do aumento da participação do sistema financeiro (35,42% do custeio), esse crédito foi concedido sob condições mais rígidas e seletivas, não representando afrouxamento do mercado.

AgriBrasilis – Quando o crédito aperta, qual é o primeiro ajuste que o produtor faz?

Cleiton Gauer – O primeiro ajuste do produtor é financeiro e operacional, antes de qualquer decisão produtiva mais profunda.

A sequência mais comum é:

  • Redução ou postergação de investimentos (ajuste na área produtiva e no parque de máquinas);
  • Alongamento de prazos com fornecedores;
  • Ajuste no pacote tecnológico, priorizando custo e eficiência: o maior uso de genéricos, revisão das doses de aplicações marginais;
  • Renegociação de arrendamentos e contratos de serviços;
  • Maior uso de recursos próprios, em especial operações de barter.

AgriBrasilis – Por que o produtor está recorrendo mais ao crédito bancário?

Cleiton Gauer – O produtor está recorrendo mais ao crédito bancário por necessidade, não por preferência.

Os principais indicadores são:

  • Forte retração das revendas, cuja participação caiu de 11,45% para 5,25%, em função de falências e RJs;
  • Redução da oferta de crédito comercial tradicional, especialmente a prazo;
  • Maior robustez financeira dos bancos, que conseguiram absorver parte do risco deixado por outros agentes;
  • Inclusão das linhas próprias dos bancos privados

Como resultado, o Sistema Financeiro passou a responder por 35,42% do custeio da soja em MT, tornando-se o principal financiador da safra 2025/26.

AgriBrasilis – Que instrumentos estão preenchendo o espaço deixado pelo crédito (CPR, barter etc.)?

Cleiton Gauer – O espaço deixado pelo crédito tradicional está sendo preenchido por uma combinação de instrumentos privados e estruturados:

  • CPR (financeira e física) – Ferramenta relevante de crédito privado, central em cenários de restrição.
  • Barter estruturado – Ganhou mais relevância, especialmente via multinacionais e tradings, com maior controle de risco.
  • Operações estruturadas no mercado de capitais – CRA, CDCA e FIDC, mais comuns para produtores médios e grandes.
  • FIAGROs – Permanecem existentes, embora com apetite mais seletivo.
  • Autofinanciamento – Uso de capital próprio oriundo da safra anterior, reduzindo liquidez futura.
  • Venda antecipada com travas de preço – Usada como mecanismo de destravamento de crédito.

 

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