Uso inadequado de agroquímicos coloca lavouras sensíveis em risco

Published on: August 3, 2026

“A deriva não ocorre mais ou menos no Sul do país, pois ela não é dependente de região, mas sim de condições ambientais e operacionais…”

Vitor Araújo é professor adjunto do departamento de fitotecnia e fitossanidade da Universidade Federal do Paraná – UFPR, engenheiro Agrônomo pela UFV, mestre e doutor em engenharia agrícola pela Unesp.

Vitor Araújo, professor da UFPR


AgriBrasilis – O que é e o que causa a deriva de agroquímicos?

Vitor Araújo – A deriva de agroquímicos é o deslocamento das gotas pulverizadas para fora do alvo. Ela pode ocorrer dentro ou fora da área de aplicação. No primeiro caso, é denominada endoderiva, que é um fenômeno natural: nem sempre a área pulverizada está completamente coberta pela vegetação, sobretudo quando a cultura se encontra no início do ciclo. No segundo caso, fora da área de aplicação, denomina-se exoderiva. Esse é o tipo mais preocupante, pois pode atingir áreas sensíveis e causar danos a outras lavouras, ao meio ambiente e até mesmo às pessoas.

As principais causas da deriva estão relacionadas à tomada de decisão incorreta no momento da aplicação, ou seja, à escolha de uma técnica de aplicação com alto potencial de deriva associada a condições ambientais desfavoráveis. Via de regra, as condições recomendadas para a aplicação são: temperatura inferior a 30 °C, umidade relativa do ar superior a 60% e velocidade do vento entre 3 e 10 km/h. Não seguir essas recomendações significa assumir um elevado risco de perdas por deriva.

A principal condição operacional que favorece a ocorrência de deriva é a utilização de gotas de classe fina ou menor (< 218 µm).

AgriBrasilis – Quais os danos causados pela deriva?

Vitor Araújo – Os danos causados pela deriva dependem da classe de produtos utilizada na aplicação. Herbicidas podem causar a morte de culturas sensíveis ou provocar danos à vegetação nativa. Inseticidas podem ocasionar mortalidade ou efeitos subletais em organismos não-alvo, como polinizadores e inimigos naturais. No entanto, independente da classe do produto, podem ocorrer intoxicações em maior ou menor grau em pessoas, animais e no meio ambiente como um todo.

A deriva também gera prejuízos econômicos e pode resultar em consequências regulatórias. Do ponto de vista econômico, todo produto perdido por deriva deixa de ser depositado sob o alvo, podendo comprometer a eficiência do controle e aumentar a necessidade de reaplicações.

Em situações mais críticas, quando a deriva ocorre de forma recorrente devido à não adoção de boas práticas agrícolas, podem ser adotadas medidas restritivas em âmbito municipal, estadual ou federal para limitar o uso de determinadas moléculas, como ocorreu com o herbicida 2,4-D no Rio Grande do Sul. Em outras palavras, o uso inadequado por parte de alguns produtores pode resultar em restrições que afetam a todos, limitando o acesso a importantes ferramentas para o manejo de plantas daninhas.

AgriBrasilis – Por que o Sul concentra tantos relatos e conflitos envolvendo deriva?

Vitor Araújo – A deriva não é dependente de região, mas sim de condições ambientais e operacionais que dependem de quem lida diretamente com o processo de aplicação dos agroquímicos. No entanto, temos visto nos últimos anos muitas tentativas de proibição de moléculas. O principal caso ocorreu no Rio Grande do Sul com os herbicidas “hormonais” (tecnicamente classificados como mimetizadores de auxinas), onde está classificado o 2,4-D, Dicamba, fluoxipir, triclopir, etc. Foram relatados inúmeros casos de deriva desses herbicidas com danos a culturas frutíferas do RS, tais como uva, maçã, nozes, etc. O resultado não foi a criação de uma instrução normativa a fim de tornar mais rigorosa as exigências quanto a aplicação desses produtos.

Apesar da deriva ser um fenômeno independente de região geográfica, algumas condições do Sul tornam o ambiente agrícola mais sensível aos conflitos devido a ela, como a grande diversidade de culturas e propriedades menores. Na mesma região em que temos frutas sendo cultivadas, também há grãos, florestas, pastagens, mel e seda, e os agroquímicos podem se deslocar em curtas distâncias e atingir algo que seja sensível a eles.

Outro ponto de alerta para a região Sul é a fronteira dos estados com outros países, o que facilita a entrada de produtos fitossanitários ilegais, que podem apresentar um potencial de deriva significativamente maior em função dos componentes da formulação.

AgriBrasilis – Por que herbicidas hormonais são mais associados a danos por deriva?

Vitor Araújo – Esse é um nome genérico para a classificação dos herbicidas pertencentes ao Grupo O (herbicidas mimetizadores de auxinas) do Comitê de Ação a Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas. Esses produtos normalmente estão associados à deriva por serem frequentemente utilizados no manejo de plantas daninhas de difícil controle como a Buva (Conyza bonariensis) sobretudo em operações de dessecação. Por isso, quanto mais um herbicida é utilizado, o risco de termos problemas com ele é também maior.

No entanto, culturas frutíferas como a uva possuem sensibilidade extrema aos ácidos desses herbicidas e, por isso, em concentrações muito baixas na atmosfera podem gerar efeitos fitotóxicos nos parrerais. É importante destacar que os danos pela deriva são prioritariamente causados devido ao mal uso da tecnologia de aplicação, independente das moléculas pulverizadas.

AgriBrasilis – Como distinguir a deriva de gotas da volatilização e quais são os efeitos da inversão térmica?

Vitor Araújo – No campo, é praticamente impossível realizar essa distinção a não ser que se defina condições experimentais para se ter essa elucidação. O que eu posso dizer é que a deriva física (ocorrida pelo transporte das gotas pelo vento) é extremamente limitada e, em diversas pesquisas que conduzi, não chega a ser representativa em distâncias superiores a 200 metros da área pulverizada.

A deriva de vapor ocorre pela evaporação das gotas e/ou volatização do ingrediente ativo, que podem percorrer longas distâncias e atingir zonas de sensibilidade. Essa deriva é intensificada em condições de inversão térmica, em que as gotas mais finas do espectro formado na pulverização não conseguem se depositar e ficam suspensas na atmosfera, podendo evaporar e percorrer longas distâncias (acima de 300 m). Os danos dependem da sensibilidade dos alvos às moléculas que sofreram essa deriva e muitas vezes associamos os danos aos herbicidas pois o seu efeito é pronunciado e visível em cultivos sensíveis.

É preciso ter muita atenção à condição de inversão térmica e a recomendação é não aplicar e aguardar até que as condições meteorológicas voltem a estar favoráveis à aplicação.

AgriBrasilis – Quais as recomendações de tecnologia de aplicação para mitigar problemas com deriva?

Vitor Araújo – As recomendações de tecnologia de aplicação para mitigação de deriva são chamadas de Técnicas de Redução de Deriva e funcionam através da integração de estratégias contudentes. Essas estratégias são constituídas por parâmetros operacionais, meteorológicos e de formação de calda.

Em termos de parâmetros operacionais, o principal fator para reduzir deriva é a escolha da ponta de pulverização adequada, componente principal para aumentar o diâmetro das gotas.

Em termos meteorológicos, deve-se seguir as condições de segurança para aplicação: temperatura abaixo de 30 graus celsius, umidade relativa acima de 50% e velocidade do vento entre 3 e 10 km/h. Esses são valores de referência, ou seja, quanto mais o aplicador se distância dessas condições, maior será o risco de deriva.

Com relação a formação da calda, o agricultor deve dar prioridade para formulações mais novas, que possuam coformulantes que reduzam a deriva, e também deve priorizar o uso de adjuvantes redutores de deriva.

 

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