“Os dados geoespaciais estão mudando profundamente a forma como o agro opera e toma decisões…”
Sergio Rocha é fundador e CEO da Agrotools, empresa brasileira de tecnologia para o agronegócio especializada em inteligência territorial, dados geoespaciais, análise de risco, rastreabilidade e compliance socioambiental.
Rocha é conselheiro do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp, com formação em estratégia de negócios pelo IMD – International Institute for Management Development, em Lausanne, na Suíça.

Sergio Rocha, fundador e CEO da Agrotools
AgriBrasilis – Como os dados geoespaciais estão mudando o agro?
Sergio Rocha – Os dados geoespaciais estão mudando profundamente a forma como o agro opera e toma decisões. O setor sempre lidou com variáveis complexas, mas hoje temos a capacidade de enxergar o território com um nível de profundidade e escala que antes era muito difícil.
Isso muda tudo: da gestão da produção à concessão de crédito, passando por compliance, rastreabilidade e gestão de oportunidades e riscos. Na Agrotools, entendemos que o território deixou de ser apenas uma localização geográfica. Ele se tornou uma camada estratégica de inteligência para todo o agronegócio.
AgriBrasilis – Que tipos de dados são coletados e como são processados para monitorar lavouras e cadeias produtivas?
Sergio Rocha – Hoje falamos de um volume massivo de dados: imagens de satélite, clima, relevo, solo, registros fundiários, dados ambientais e informações produtivas. Mas o ponto central não é a quantidade de dados, e sim a capacidade de conectá-los de forma inteligente.
Quando combinamos geotecnologia, ciência de dados e inteligência artificial, conseguimos transformar dados dispersos em informação acionável. Isso permite monitorar lavouras, acompanhar cadeias produtivas e identificar padrões de oportunidades e riscos em larga escala. O verdadeiro valor está em transformar complexidade em clareza para apoiar melhores decisões no agro.
AgriBrasilis – Como identificar, em larga escala, riscos como desmatamento, embargos ambientais e irregularidades socioambientais?
Sergio Rocha – Esse é um desafio que só pode ser resolvido com tecnologia. Não há escala possível com processos puramente manuais. A resposta está no cruzamento automatizado entre dados territoriais, bases regulatórias e indicadores socioambientais, como alertas de desmatamento, embargos e áreas protegidas.
Isso permite identificar riscos com precisão, rapidez e padronização. O mercado já entendeu que monitorar riscos não é mais uma prática reativa. Hoje, a antecipação é um diferencial competitivo e, cada vez mais, uma exigência operacional.
AgriBrasilis – Como os dados se relacionam com crédito e avaliação de risco?
Sergio Rocha – Essa relação é cada vez mais direta. O crédito agro está evoluindo para um modelo de análise muito mais sofisticado. Já não basta avaliar apenas a capacidade financeira. Hoje, é essencial entender o risco produtivo, climático, territorial e socioambiental.
Os dados geoespaciais reduzem a assimetria de informação e aumentam a precisão da análise de risco. Isso gera mais segurança para instituições financeiras e melhora a qualidade das carteiras de crédito. No futuro próximo, o crédito no agro será cada vez mais orientado por inteligência territorial.
AgriBrasilis – O que muda para o crédito com a resolução CMN nº 5.267/2025?
Sergio Rocha – A resolução acelera uma transformação que já estava em curso. O risco socioambiental e climático passa a ocupar papel central na lógica de concessão e monitoramento do crédito rural. Isso eleva o nível de exigência para as instituições financeiras, que precisarão operar com mais rastreabilidade, visibilidade e capacidade analítica.
Na prática, estamos falando de uma mudança estrutural. Monitoramento contínuo e inteligência territorial deixam de ser diferenciais e passam a ser essenciais para conformidade e competitividade.
AgriBrasilis – A rastreabilidade virou exigência comercial?
Sergio Rocha – Sem dúvida. Essa discussão já avançou. Não estamos mais debatendo se a rastreabilidade será necessária, mas quão rapidamente as empresas conseguirão se adaptar.
Mercados, indústrias, instituições financeiras e consumidores exigem cada vez mais transparência sobre origem e conformidade da produção. Esse movimento é irreversível. A rastreabilidade deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma condição de acesso a mercados, capital e oportunidades comerciais. No agro, transparência já é um ativo estratégico.
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