“O impacto do El Niño depende de fatores como cultura, estágio fenológico, solo, histórico climático, janela de plantio…”
Vitor Ozaki é CEO da Picsel e professor associado da Esalq/USP. Engenheiro agrônomo pela Universidade de São Paulo, doutor em economia aplicada pela USP e pós-doutor pela Esalq/USP. Na Picsel, lidera a estratégia de tecnologia, dados e inteligência de risco voltada a seguradoras, resseguradoras, bancos e demais agentes do agronegócio.
AgriBrasilis – É possível mensurar os riscos do El Ninõ?
Vitor Ozaki – É possível mapear os impactos do El Niño sobre o clima, mas mensurar diretamente seus efeitos na produtividade agrícola ainda é desafiador, sobretudo pela falta de dados de qualidade em escala nacional e em nível de propriedade.
No Brasil, o fenômeno afeta as regiões de forma distinta. No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, tende a haver maior volume acumulado de chuvas, embora isso não signifique boa distribuição ao longo da safra. No Norte e Nordeste, ocorre o oposto, com menor volume de chuvas e maior risco de seca. Já no Centro-Oeste e Sudeste, os efeitos sobre a precipitação são mais variáveis, mas há maior exposição a temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas e eventos climáticos severos.
Ainda assim, a produtividade depende fortemente do manejo, tecnologia, data de semeadura, tipo de solo e planejamento agrícola. Mesmo talhões próximos, dentro de uma mesma fazenda, podem apresentar resultados diferentes sob as mesmas condições de El Niño.
AgriBrasilis – Que culturas e regiões exigem mais atenção?
Vitor Ozaki – Todas culturas podem ser afetadas, principalmente por chuvas irregulares e temperaturas mais altas. As regiões Sul, Norte e Nordeste exigem atenção especial, mas Centro-Oeste e Sudeste também apresentam riscos.
No Sul, o maior volume de chuvas pode causar atrasos no plantio e na colheita, menor luminosidade, excesso de umidade e maior pressão de doenças. Soja e milho podem sofrer problemas operacionais, enquanto culturas de inverno, como o trigo, embora tenham menor risco de geadas, podem perder qualidade com chuvas próximas à colheita.
No Norte e Nordeste, especialmente no Matopiba, o principal risco é o déficit hídrico. A irregularidade ou o atraso das chuvas pode comprometer o plantio da soja e reduzir a janela da segunda safra, expondo o milho safrinha a maior risco de quebra por seca.
No Centro-Oeste e Sudeste, o impacto tende a aparecer mais por meio de altas temperaturas e ondas de calor. Soja e milho podem enfrentar estresse térmico, enquanto culturas perenes, como o café, podem ter perdas em fases sensíveis, como florada e enchimento de grãos.
AgriBrasilis – Que medidas preventivas os produtores poderiam adotar?
Vitor Ozaki – A principal medida é tratar o El Niño não como uma previsão isolada, mas como um cenário de risco a ser incorporado ao planejamento da safra. Isso exige revisar, antes do plantio, a janela de semeadura, escolha de cultivares, ciclo das variedades, população de plantas, adubação, manejo de solo, drenagem, irrigação quando disponível e estratégia de colheita.
No Sul, a prioridade deve ser reduzir os impactos do excesso de chuva, com atenção à drenagem, compactação do solo, doenças fúngicas, escolha de áreas menos sujeitas a encharcamento e planejamento para janelas curtas de plantio e colheita.
Nas regiões sujeitas a seca, calor e irregularidade hídrica, o foco deve ser preservar água no solo, ajustar o calendário agrícola, evitar que fases críticas da cultura coincidam com períodos de maior risco e dimensionar corretamente o pacote tecnológico.
Também é essencial avaliar a dimensão financeira. O produtor deve simular perdas de produtividade de 10%, 20% ou 30%, analisar sua exposição ao crédito, verificar se o seguro cobre os riscos mais prováveis da região e avaliar se a operação suportaria uma safra abaixo do esperado sem comprometer a próxima.
AgriBrasilis – Como IA e dados ajudam a mensurar e a precificar riscos?
Vitor Ozaki – IA e dados ajudam a transformar um risco climático amplo em uma leitura mais específica da exposição de cada região, cultura, propriedade e carteira.
O impacto do El Niño depende de fatores como cultura, estágio fenológico, solo, histórico climático, janela de plantio, capacidade de retenção de água, manejo e situação financeira do produtor.
Modelos baseados em dados permitem cruzar séries históricas de clima, produtividade, solo, sensoriamento remoto, zoneamento agrícola, calendário de cultivo, histórico de perdas e informações da propriedade. Com isso, é possível estimar melhor a probabilidade de eventos adversos e seus impactos econômicos. Na prática, essa análise ajuda a avaliar risco de déficit hídrico em fases críticas da soja, excesso de chuva na colheita do trigo, exposição acumulada em carteiras de crédito ou seguro e vulnerabilidade de produtores a uma safra adversa.
Na precificação, os dados permitem calcular com mais precisão a frequência e o valor esperado das perdas, o risco de eventos extremos e a correlação espacial dos prejuízos. Também ajudam a desenhar coberturas mais aderentes, evitando tratar produtores diferentes como se tivessem o mesmo risco. A IA não elimina a incerteza, mas melhora a capacidade de medir, comparar e atualizar riscos.
AgriBrasilis – Crédito e seguro estão preparados para uma safra mais arriscada? O El Ninõ pode agravar dívidas e recuperações judiciais no agro?
Vitor Ozaki – O mercado de crédito e seguro evoluiu, mas ainda não está plenamente preparado para uma safra mais arriscada. Bancos, cooperativas, tradings, fornecedores e fundos estão mais seletivos, avaliando endividamento, garantias, histórico de pagamento e capacidade financeira dos produtores.
No entanto, muitas análises ainda consideram pouco o risco climático e produtivo específico da área financiada. Hoje, a safra não sustenta apenas a renda do produtor. Ela também dá suporte a crédito rural, CPRs, barter, recebíveis, CRA, FIAGROs e outras estruturas privadas de financiamento. Assim, uma quebra de produtividade deixou de ser apenas um problema agronômico e passou a representar risco de crédito, caixa e carteira para toda a cadeia.
O seguro agrícola deveria ser parte central dessa estratégia, mas ainda tem baixa penetração e, muitas vezes, coberturas pouco aderentes à realidade de cada produtor. Em um ambiente de maior volatilidade climática, proteger a lavoura é também proteger o financiamento que depende dela.
O El Niño pode agravar dívidas e aumentar renegociações ou recuperações judiciais, embora raramente seja a causa única. Ele tende a acelerar fragilidades já existentes, como margens apertadas, alto endividamento, custos elevados, crédito mais caro, passivos acumulados e baixa proteção contra risco climático. Quando há perda de produtividade ou qualidade, a receita cai, o caixa fica pressionado e cresce a dificuldade de honrar compromissos. Por isso, planejamento financeiro, seguro, monitoramento climático e integração entre dados produtivos e análise de crédito são essenciais para reduzir riscos.
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