Mesmo sob contestação na Europa, acordo Mercosul-UE já reduz tarifas para mercadorias brasileiras

Published on: May 21, 2026

“Preocupações agrícolas levaram o Parlamento Europeu a encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE…”

Marian Schuegraf é embaixadora da União Europeia no Brasil. Advogada de formação, estudou na Universidade de Erlangen/Nuremberg e na Université de Rennes. Foi embaixadora da Alemanha na Colômbia, vice-chefe de missão na Embaixada da Alemanha em Teerã e diretora para América Latina e Caribe no Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.


AgriBrasilis – O que muda, na prática, com a aplicação provisória do acordo Mercosul-União Europeia?

Marian Schuegraf – O acordo comercial Mercosul-União Europeia entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio, representando um momento histórico nas nossas relações e trazendo ganhos concretos para empresas, trabalhadores e consumidores. Desde então, a UE passou a conceder condições ainda mais vantajosas para as exportações industriais e agrícolas do Mercosul, com a eliminação da maior parte das tarifas e a redução gradual de muitas outras.

O acordo aprofunda a nossa parceria estratégica e demonstra que, mesmo em um contexto mundial de protecionismo e coação, é possível avançar com soluções concretas, baseadas no diálogo e na cooperação. Agora cabe a todos nós trabalharmos para que todas as oportunidades abertas pelo acordo saiam do papel o mais rápido possível.

A UE já está implementando o acordo. Mercadorias brasileiras que chegam aos portos europeus já são beneficiadas por tarifas zeradas ou reduzidas. Junto com o Mercosul, estamos estabelecendo os comitês conjuntos previstos no acordo, que terão a função de monitorar sua implementação e facilitar o diálogo, com participação importante da sociedade civil.

Nosso objetivo é incentivar a cooperação estruturada entre associações profissionais, tomadores de decisão e formadores de opinião, facilitando o diálogo em áreas definidas. Um exemplo é a capacitação das pequenas e médias empresas para fazerem o melhor uso possível das oportunidades do acordo.

AgriBrasilis – Por que o Parlamento Europeu levou o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia?

Marian Schuegraf – Preocupações agrícolas levaram o Parlamento Europeu a encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE, para um parecer que poderá demorar até dois anos. Confiamos que, durante esse período, a aplicação provisória demonstrará os muitos benefícios do acordo, inclusive para os agricultores europeus. Por exemplo, o acordo promove as indicações geográficas e facilita as exportações de queijos, salsichas, vinhos e destilados europeus.

AgriBrasilis – Qual foi o papel da Delegação da UE no Brasil nesse processo?

Marian Schuegraf – Tem sido uma prioridade apoiar a conclusão do processo negocial e agora garantir a implementação do acordo. Nosso papel é transmitir e contextualizar recados importantes entre a UE e o Brasil, permitindo que todos possam aproveitar as oportunidades do acordo.

O segundo Fórum de Investimento UE-Brasil, em Brasília, no dia 23 de junho de 2026, organizado pela Delegação da UE em parceria com a ApexBrasil e o CEBRI, destacará as tendências positivas. A edição inaugural do ano passado, em São Paulo, reuniu quase 200 participantes para debater oportunidades estratégicas em energia sustentável, matérias-primas críticas, infraestrutura digital e mobilidade verde.

AgriBrasilis – Quais ganhos concretos o acordo traz para os dois blocos?

Marian Schuegraf – A redução ou eliminação das tarifas de importação para máquinas, equipamentos e químicos europeus tende a diminuir os custos de produção no Brasil. O acordo vai incentivar a integração da indústria brasileira nas cadeias globais de valor, diversificando as exportações brasileiras além das commodities e gerando empregos de qualidade no país. Ao mesmo tempo, os consumidores brasileiros passam a ter acesso a produtos europeus com preços mais competitivos e maior diversidade de oferta.

O acordo também cria um marco comercial mais previsível e transparente, reduzindo incertezas e custos operacionais. Pequenas e médias empresas, em especial, ganham melhores oportunidades para entrar em novos mercados. Prestadores de serviços, como no transporte marítimo, também se beneficiam de maior previsibilidade e segurança jurídica.

O acordo vai fomentar o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil, incentivando a inovação verde e abrindo os mercados europeus para produtos sustentáveis da Amazônia e de outras regiões.

No campo das compras públicas, o acordo amplia a concorrência em grande parte das licitações, contribuindo para reduzir despesas para governos e contribuintes.

Além disso, regras mais estáveis e o acesso preferencial ao mercado europeu tornam o Mercosul ainda mais atraente para investidores da UE, em linha com a nossa estratégia Global Gateway. A UE já é o principal investidor estrangeiro no Brasil, e o acordo deve estimular novos investimentos em infraestrutura, tecnologia e energia, gerando impactos positivos duradouros para o desenvolvimento socioeconômico.

AgriBrasilis – Como evitar que regras ambientais se tornem barreiras comerciais?

Marian Schuegraf – As regras ambientais da UE são transparentes, baseadas em dados científicos e respondem às preocupações legítimas da opinião pública. O diálogo contínuo com nossos parceiros é fundamental para garantirmos um comércio livre e sustentável. Justamente por isso, o acordo Mercosul-UE inclui compromissos de ambos os lados com o meio ambiente e a luta contra as mudanças climáticas. As regras ambientais podem trazer custos para um setor bem desenvolvido como o agronegócio brasileiro, mas oferecem também muitas novas oportunidades.

 

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