Pressão prolongada nos fertilizantes e produtor sob pior relação de troca em 20 anos

Yara Brasil
Published on: May 5, 2026

“Estamos diante de conjuntura que combina conflitos geopolíticos e altos custos de energia…”

Alessandro Riquetti, vice-presidente de supply chain da Yara Brasil, engenheiro elétrico pela UFSC, com especialização e mestrado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


AgriBrasilis – Até onde o preço dos fertilizantes pode chegar?

Alessandro Riquetti – Estamos diante de uma conjuntura que combina conflitos geopolíticos e altos custos de energia, o que sinaliza que a tendência de preços ainda é de alta e o mercado ainda não atingiu o teto dessa escalada. O quadro é agravado pelo conflito no Oriente Médio, região estratégica para o fornecimento de nitrogênio global, que fez os fertilizantes dispararem. Recentemente, a ureia chegou a US$ 943 por tonelada em licitações internacionais, em um cenário de ausência da China no mercado exportador e danos em infraestruturas globais de gás. Esse conjunto de fatores cria um gargalo que dificulta qualquer previsão de teto ou estabilidade de preços no curto prazo.

Na Yara, não compramos de países sancionados e contamos com uma rede global de fornecedores. Além disso, operamos um comitê de crise diário para mitigar esses impactos e garantir o abastecimento dos nossos parceiros, evitando que o cenário de preços elevados se transforme em desabastecimento. Nossa estratégia foca em produtos de alta tecnologia e contratos que tragam segurança jurídica e operacional, mas é fundamental entender que o preço dos fertilizantes continuará pressionado enquanto persistirem incertezas no Estreito de Ormuz e as dificuldades logísticas globais. O momento exige cautela extrema e decisões de investimento muito bem fundamentadas por parte do produtor.

AgriBrasilis – Quais têm sido os efeitos da instabilidade geopolítica sobre o setor? Esse cenário também abriu oportunidades para as empresas?

Alessandro Riquetti – A instabilidade geopolítica tem gerado efeitos severos e imediatos, especialmente sobre o fornecimento de nitrogênio e ureia, uma vez que o Oriente Médio é responsável por cerca de 34% da produção global desses insumos. Com o agravamento dos conflitos, enfrentamos pressão direta nos custos de produção devido à volatilidade do gás natural e do petróleo, o que resultou em uma disparada de mais de 50% nos preços dos fertilizantes. Esse quadro compromete significativamente a rentabilidade do agricultor brasileiro, que hoje lida com a pior relação de troca dos últimos 20 anos, já que os preços dos grãos não acompanharam a alta dos custos. Além disso, os danos físicos à infraestrutura global, como ataques a gasodutos e unidades de produção por drones e mísseis, tornam o retorno à normalidade ainda mais complexo e incerto.

Esse cenário crítico forçou o setor a amadurecer e buscar soluções estratégicas. Na Yara, a crise consolidou uma transição iniciada em 2021 para modelos de negócio mais seguros, priorizando contratos que garantam o abastecimento e evitem o acúmulo de estoques desnecessários. Existe também uma oportunidade clara para acelerar o debate sobre a soberania nacional em fertilizantes: o Brasil, que hoje importa 85% de suas necessidades, vê o fortalecimento de projetos de infraestrutura de gás e o avanço de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes como caminhos essenciais para reduzir a dependência externa.

AgriBrasilis – Como crédito restrito, margens apertadas e endividamento têm afetado o mercado?

Alessandro Riquetti – O crédito restrito e os juros elevados no país, que hoje estão em torno de 15% ao ano (com taxa real podendo chegar a 24%), criaram um gargalo financeiro que inviabiliza a conta para muitos produtores. Esse cenário de endividamento, somado a margens extremamente apertadas, resultou em aumento preocupante nos pedidos de recuperação judicial e na inadimplência em toda a cadeia. O efeito imediato é um mercado mais conservador: os bancos reduziram a concessão de financiamentos e as revendas limitaram operações de crédito direto, dificultando o acesso ao insumo para quem não tem capital próprio.

Essa pressão financeira força o agricultor a uma “tempestade perfeita”: ele precisa investir em fertilizantes, que subiram mais de 50%, mas não possui liquidez, pois os preços dos grãos não acompanharam a alta dos custos. Como consequência, vemos uma retração na demanda de mercado, que pode recuar entre 5% e 10% este ano. O produtor está sendo obrigado a ser muito mais seletivo e eficiente, priorizando a sobrevivência do caixa sobre a expansão da produtividade.

AgriBrasilis – Fertilizante de baixo carbono é um mercado premium. O produtor está mais preocupado com sustentabilidade ou relação de troca?

Alessandro Riquetti – Embora os fertilizantes de baixo carbono representem o futuro e o compromisso da Yara em alimentar o mundo de forma responsável e proteger o planeta, não podemos ignorar a realidade imediata do campo: o produtor rural brasileiro vive hoje uma crise de rentabilidade sem precedentes. Atualmente, a principal preocupação do agricultor é, sem dúvida, a relação de troca e a manutenção das suas margens, que estão sob pressão pela pior conta dos últimos 20 anos. O acesso ao crédito restrito e os juros elevados tornam a decisão de investimento uma questão de sobrevivência financeira, sobrepondo-se momentaneamente à agenda ambiental.

Enxergamos a sustentabilidade e a viabilidade econômica como pilares que devem convergir. Entendemos que o fertilizante de baixo carbono é a resposta estratégica para garantir a competitividade do agro brasileiro a longo prazo, especialmente frente às crescentes exigências de exportação e barreiras ambientais globais. Na Yara, estamos investindo para que essa tecnologia, como a nossa produção de amônia renovável no Brasil seja referência de uma agricultura regenerativa que gere valor para o produtor também no aspecto financeiro, por meio de maior eficiência e novos mercados.

Nossa meta é clara: queremos quadruplicar o volume do nosso portfólio de menor pegada de carbono até 2026, mas compreendemos que o ritmo dessa adoção depende da estabilização econômica do setor.

AgriBrasilis – Muitos produtores têm buscado alternativas de menor custo. Quais as consequências?

Alessandro Riquetti – O movimento de muitos produtores em busca de alternativas de menor custo é uma reação compreensível, mas traz consequências que podem comprometer seriamente a produtividade. Na agricultura não existe “produto mágico”. O uso de insumos de baixa tecnologia ou sem comprovação científica frequentemente resulta em quedas na produtividade, anulando qualquer economia inicial no custo do fertilizante. Ao optar por soluções menos eficientes, o produtor corre o risco de reduzir a oferta de nutrientes essenciais quando a planta mais precisa, o que pode levar a uma safra com volume e qualidade inferiores.

Além da questão agronômica, há um risco logístico e de confiança muito alto. Em momentos de escassez e incerteza geopolítica, o mercado torna-se propício para o surgimento de ofertas que podem não ser entregues ou que não possuem o rigor técnico necessário. Se o produto não chega no prazo para o plantio ou se a sua composição é duvidosa, o prejuízo é dobrado: o agricultor paga por algo que não funciona e perde a janela ideal de cultivo.

AgriBrasilis – Como fica a situação de quem ainda não comprou fertilizantes para a próxima safra?

Alessandro Riquetti – Para quem ainda não garantiu os insumos, a situação é de alerta máximo e exige agilidade. Com o ciclo de importação levando cerca de 90 dias entre o embarque e a chegada à fazenda, já estamos no limite do prazo para a safra de verão. A capacidade de importação do Brasil está operando com restrições e já observamos uma queda de mais de 10% no volume de fertilizantes chegando ao país, devido aos gargalos logísticos globais e ao represamento de navios no Oriente Médio.

O risco de desabastecimento é real para quem deixar a compra para a última hora, e a prioridade agora deve ser garantir a disponibilidade do produto com parceiros sólidos.

 

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